
Seminaristas refletem sobre santidade e inspiração cristã em artigos acadêmicos; confira os textos completos
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22 de outubro de 2025A EFICÁCIA DA PREGAÇÃO DO CURA D’ARS: LIMITAÇÕES INTELECTUAIS SUPERADAS PELA LUZ DA GRAÇA DIVINA
Trabalho elaborado nas aulas de Língua Portuguesa – Comunicação e Introdução à Metodologia do Seminário Propedêutico São José, por EDUARDO RAMPON MEIRELES , e orientado por MsC. Professor Henrique Alves de Lima
Resumo
Este artigo tem como objetivo realizar uma reflexão hagiográfica com base em publicações de Francis Trochu (2018) nas quais busca-se narrativas exemplares para a santidade e a devoção, influenciando o comportamento dos fiéis e propedeutas quanto ao entendimento do papel da Igreja e a função sacerdotal. A pesquisa bibliográfica sobre a vida e missão de São João Vianney, o Cura d’Ars, destaca como sua santidade foi o elemento central para a eficácia de sua ação pastoral, apesar de suas limitações intelectuais, justifica-se pela necessidade de discernimento sobre a superação de limites pessoais na formação sacerdotal. Ele enfrentou severas dificuldades acadêmicas, especialmente com o latim, durante sua formação sacerdotal. Sua ordenação só foi possível graças à intervenção de seu diretor espiritual e à ação da graça divina. Ao assumir a paróquia de Ars, marcada por vícios e indiferença religiosa, Vianney transformou-a em um centro de fervor espiritual e santidade. Suas pregações simples, mas profundamente tocantes, atraiu multidões e converteu corações, evidenciando que sua força pastoral não se originava de habilidades naturais, mas de uma vida radicalmente configurada a Cristo. A análise teológica do artigo fundamenta-se na doutrina da Igreja sobre o sacerdócio, especialmente nas palavras de João Paulo II, que afirma que a santidade do presbítero é diretamente proporcional à eficácia de sua missão. Este estudo conclui que a santidade pessoal do sacerdote é um fator determinante na fecundidade de sua ação pastoral, sendo São João Vianney um exemplo paradigmático dessa verdade e um convite à renovação espiritual do clero contemporâneo.
Palavras-chave: João Maria Vianney, santidade, Igreja Católica.
Introdução
São João Vianney foi um santo sacerdote católico, nascido no ano de 1786 em Dardilly na França. Possuía muitas limitações intelectuais naturais, mas mesmo assim, foi proclamado pela igreja, no ano de 1929 pelo Papa Pio XI, padroeiro dos párocos. E no ano de 1959, através da encíclica Sacerdotii Nostri Primordia escrita por João XXIII no centenário de sua morte, foi apresentado como modelo a todos os sacerdotes do mundo.
No seminário, local que na época ainda se cobrava conhecimentos e conteúdos em latim, teve imensas dificuldades com a língua, chegando ao ponto de decidir-se a abandonar os estudos e ingressar em uma ordem religiosa. Contudo, devido a intervenção de seu diretor espiritual, desistiu da ideia, e com auxílio da graça conseguiu avançar nos estudos.
Depois de ordenado, assumiu a pequena paróquia de Ars, onde a corrupção dos vícios se fazia presente na maior parte dos paroquianos, e não obstante suas dificuldades intelectuais, tornou-se um magnífico pregador convertendo seu rebanho e impactando toda a França.
A ausência de habilidades naturais do santo, que comparada com os seus frutos mostra-se um disparate, só pode ser explicada pela ação da graça divina, e por isso, neste trabalho, será apresentada uma singela reflexão teológica que busca clarear os resultados pastorais fantásticos alcançados por ele.
1 – VIDA E LIMITAÇÕES DO CURA D’ARS
Neste capítulo será tratado de maneira breve sua trajetória vocacional e suas evidentes limitações intelectuais.
1.1 Vida
São João Batista Maria Vianney nasceu no ano de 1786, na França. Sua alfabetização se deu tarde na adolescência, fazendo com que ele tivesse dificuldades intelectuais em várias áreas. Entrou no seminário aos 20 anos de idade, e depois de muitas intempéries e sofrimentos com os estudos, a graça divina o ajudou a ser ordenado no ano de 1815 (ARQUIDIOCESE DE BELO HORIZONTE, 2025).
Mesmo com todas as suas limitações intelectuais, sua santidade e dedicação fez dele um dos maiores confessores que a Igreja já teve, transformando não apenas os seus paroquianos mas toda a França (ARQUIDIOCESE DE BELO HORIZONTE, 2025).
1.2 Limitações intelectuais
Aos seus 20 anos de idade ingressou no seminário menor em Verrières. Ali algumas matérias eram ministradas por professores visando a preparação para as próximas etapas, e no final do ano, foi atribuído a cada seminarista uma nota que expressava suas competências em diferentes áreas, e dentre elas havia uma de “Ciência” que tratava do desempenho intelectual do aluno nas matérias que envolviam conhecimento, João obteve um rótulo de “Muito fraca” para este atributo. O santo era muito dedicado – possivelmente mais do que qualquer um de seus pares -, como os próprios colegas relataram, e ainda assim não conseguiu um bom resultado. Expressando ainda mais suas limitações intelectuais, foi o fato de que ele ficou satisfeito com esse resultado já que julgava “não conseguir reter muita coisa na memória” como seu passado já denunciava (TROCHU, 2018).
Já estando no seminário maior de Santo Irineu, o seu companheiro de quarto chamado Bezacier relatou que “o resultado nos estudos era nulo, pois bem pouco entendia a língua latina. Muitas vezes, eu mesmo lhe dei explicações que, aliás, não conseguia compreender. Apesar disso, a aplicação era contínua”. Se encontra aqui mais uma fonte relatando suas dificuldades com o estudo, em especial com o Latim, mas também mostrando que sua dedicação era heróica (TROCHU, 2018).
Também se conhece que os professores lhe davam preleções à parte em língua francesa para que entendesse, mas mesmo assim pouco proveito tirava, pois as aulas e provas eram cobradas em latim. Com seus esforços infrutuosos somando 6 meses, os professores o julgaram incapaz e pediram que ele se retirasse do seminário. Assim o fez, e já havendo decidido se tornar irmão religioso, o padre Balley, seu amigo e diretor espiritual, interveio e o convenceu a continuar tentando. Para isso, o próprio padre lecionou a ele e conseguiu uma oportunidade de realizar a prova de admissão. Na prova, não conseguiu entender a pergunta que lhe fizeram e acabou sendo reprovado. Só por insistência do padre e auxílio da graça divina, foi admitido padre através do Vigário Geral da Arquidiocese de Lyon (TROCHU, 2018).
Quando assumiu a cidade de Ars como padre, instalou-se na sacristia trazendo consigo alguns livros que ele estudava e manuseava visando a instrução dos fiéis da paróquia. Esses materiais eram estudados por ele, meditados e transformavam-se em escrita para seus sermões. Depois de um árduo trabalho e de ter em mãos uma pregação, era a hora de confiar tudo a sua memória para subir ao púlpito na próxima missa e proferi-lo. Outro desafio se iniciava: o da memorização, no início ele sempre se atrapalhava durante a proclamação e precisava descer para consultar os seus papéis, chegou a pedir para os paroquianos rezarem para que Deus melhorasse sua memória (TROCHU, 2018).
Através desses breves e conhecidos fatos disponíveis em sua bula de canonização, fica claro a dificuldade que o santo possuía de manipular e guardar abstrações em sua mente, e mesmo com tudo isso ele se transformará, a partir da Igreja, no modelo e exemplo de padre por causa de sua efetividade pastoral e de instrução (TROCHU, 2018).
2 – FRUTOS EXTRAORDINÁRIOS DA PASTORAL DE CURA D’ARS
Neste capítulo, trataremos brevemente de evidências que demonstram os avanços no campo da santidade na paróquia de Ars, ocasionado pelo seu intenso trabalho pastoral, e de maneira especial o de pregação.
Trochu, no seu livro, trás muitos fatos que demonstram como a paróquia, que quando assumida demonstrava uma primazia do vício, se transformou, após a atuação de Cura d’Ars, em um celeiro de santidade. Após três anos da chegada dele à Ars ele escreve de maneira confidente a uma antiga amiga: “Encontro-me em uma paróquia de muito fervor religioso e que serve a Deus de todo coração”. Além disso, em outro momento, o autor diz que “Ars mudara visivelmente de aspecto. Em uma palavra, passara do vício à virtude e de uma piedade rudimentar a um verdadeiro fervor”, e também, “Ars se convertera, de fato, em um centro irradiante de santidade”. Tudo isso demonstra o resultado total de seu trabalho pastoral, enaltecido por uma vida de profunda santidade.
Por volta do ano de 1830, as pregações e catequeses ministradas por Cura d’Ars tiveram “êxito invulgar”. Ele conseguia expressar-se de uma maneira simples e acessível que tocava todas as pessoas, inclusive as mais humildes. Essa eficácia atraiu multidões de pessoas de vários lugares e classes sociais, que iam apenas ouvir atentamente sua pregação para serem tocadas pela sua fidelidade à graça expressada em uma grande sensibilidade aos Mistérios da Fé (TROCHU, 2018).
Neste capítulo será apresentado como a santidade objetiva de vida influencia de maneira direta na eficácia das ações pastorais.
3 – A SANTIDADE COMO PROTAGONISTA DA EFICÁCIA PASTORAL
3.1 Chamado especial à santidade ao presbítero
A santidade pode ser definida como uma qualidade de alguém que alcançou uma perfeição de vida e na caridade. Os presbíteros, de maneira especialíssima, são chamados a alcançar tal estado de vida assinalado pelo sacramento da ordem. A própria natureza da ordenação sacerdotal já chama o ordenado a esse estado, uma vez que ele foi designado a agir em nome da pessoa de Cristo, e por causa disso, deve ter sua vida configurada a Ele através da manifestação da radicalidade evangélica (JOÃO PAULO II, 1992, p. 20).
O avanço da perfeição na vida de um sacerdote se dá principalmente pelo exercício da autoridade que lhe foi concedida, mas essa autoridade é uma autoridade servil: “Eu vim para servir e não ser servido” (Mt 20, 28). Os representantes dessa autoridade tanto mais avançarão na perfeição do seu ministério quanto mais agirem desta maneira (JOÃO PAULO II, 1992, p. 20). A pessoa de São João Vianney, por exemplo, expressa muito bem o perfeito exercício desta instrução, uma vez que configurou toda a sua vida a Cristo, por meio da radicalidade evangélica; e doando-se totalmente ao outro.
A consagração de um presbítero e sua missão não são separadas, a consagração é para a missão e por isso que Jesus Cristo consagrou – através da escolha – seus Apóstolos, e os direcionou exclusivamente para servi-lo através da atividade missionária. Por consequência, a vida espiritual do presbítero influencia diretamente no exercício de sua missão (JOÃO PAULO II, 1992, p. 24).
“O sacerdote é um instrumento ativo na mão de Deus, e não algo inerte e passivo” (JOÃO PAULO II, 1992, p. 25). Na vida de Cura d’Ars é possível constatar isso em diversas situações, um exemplo é quando ele vai visitar cada um de seus paroquianos visando entender a situação espiritual de cada um.
O exercício da vida presbiteral, principalmente dos sacramentos, produz frutos asseguradamente pela própria presença e ação de Cristo por meio deles.
Entretanto, o desígnio divino quis que o homem não fosse apenas um “salvado” mas também um “salvador”, e por causa permitiu que o grau de santidade do ministro influísse diretamente na eficácia de suas ações. Dessa maneira, a vida espiritual mais ou menos avançada faz com que, de maneira maior ou menor, resultados sejam gerados no anúncio da Palavra, na celebração dos Sacramentos e na condução da comunidade no crescimento da santidade (JOÃO PAULO II, 1992, p. 25). Ou seja, quanto mais unido a Cristo – por meio da caridade e perfeição de vida – o sacerdote, mais potência em suas ações eclesiais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
São João Vianney permanecerá consagrado para sempre como um grande santo modelo para os sacerdotes diocesanos da Igreja Católica, não obstante sua grande dificuldade com os estudos. Está última, manifestou-se provavelmente pela sua tardia alfabetização. Mesmo assim, fora um exímio pregador e um excelente padre, convertendo, ao longo de muitos anos, toda a sua paróquia, e ao mesmo tempo, impactando toda a França. Seus resultados pastorais extraordinários, manifestados mesmo com todos os obstáculos vividos por ele, são explicados apenas por sua vida ascética, de oração e busca constante da santidade.
Um olhar honesto para a vida desse homem mostra que os seus frutos não são justificados apenas no campo imanente da realidade, tornando-se necessário a busca de explicações teológicas no campo da graça divina. São João Paulo II, no documento, Pastores Dabo Vorbis, mostra como os efeitos dos sacramentos e ações pastorais expandem-se em correspondência com a santidade do ministro, explicando, assim, como o santo, com dons naturais muito singelos, foi capaz de impactar um país inteiro.
Em suma, entendo que o seu exemplo deve imediatamente nos fazer olharmos para a nossa vida, percebendo inicialmente, em que medida cremos na graça divina e seus poderes nas nossas ações, e em segundo lugar, diagnosticar se nossas vidas estão orientadas de maneira egoísta a servirmos a nós mesmos, e dessa forma, afastando-se cada vez mais de uma vida santa e virtuosa. Se estivermos no caminho do erro, que é o da exaltação de si mesmo, uma decisão precisa ser tomada para a mudança, pois não apenas nós sofreremos com isso, mas principalmente todas as pessoas que são participantes de nossos atos – sejam eles sacerdotais ou leigos.
REFERÊNCIAS
JOÃO PAULO II. Pastores dabo vobis: exortação apostólica pós-sinodal sobre a formação dos sacerdotes. Vaticano, 1992.
ARQUIDIOCESE DE BELO HORIZONTE. Santo do dia: São João Maria Vianney. Disponível em: https://arquidiocesebh.org.br/para-sua-fe/o-santo-do-dia/sao-joao-maria-vianney/. Acesso em: 6 ago. 2025.
TROCHU, Francis. O Cura D’Ars. 1. ed. São Paulo: Cultor de Livros, 2018. 728 p. ISBN 978-8556381613.



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