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22 de outubro de 2025SÃO FRANCISCO: UM SANTO PARA UM MUNDO MODERNO

Trabalho elaborado nas aulas de Língua Portuguesa – Comunicação e Introdução à Metodologia do Seminário Propedêutico São José, por MARCOS ANTUNES SOARES , e orientado por MsC. Professor Henrique Alves de Lima
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo conhecer e dialogar com o contexto sócio-histórico da vida de Francisco de Assis, buscando apresentar seu itinerário, numa comunicação entre a personagem e seu tempo, além de mostrar seu aporte para o mundo atual, por meio de sua concepção, tendo se como relevância o conhecimento de sua história a fim de que ele seja propósito de inspiração enquanto pessoa e motivação para a busca da santidade e do bem da humanidade. Francisco é conhecido por revolucionar a Igreja, sem, no entanto, afastar-se dela. Munido de um pensamento de unidade e fraternidade, conseguiu, de forma rara, transcender o tempo, até os dias atuais. O pensamento de Francisco colaborou para uma visão de mundo voltada à unidade dos povos, da diplomacia, meio ambiente e cultura de paz. Para escrita deste artigo foram utilizados os pressupostos teóricos-metodológicos da História Cultural para contribuir ao entendimento do homem de Assis, a bibliografia conta com autores como Foucault (1989), Le Goff (2005a – 2005b), Duby (1978, 2017), Franco (2001), além de Fassini (2004), entre outros. Entende-se que, com os estudos apresentados nas bibliografias consultadas e na elaboração deste trabalho jovens em busca de discernimento religioso e vida sacramental.
Palavras-chave: Francisco de Assis, Idade Média, Igreja Católica.
INTRODUÇÃO
Nascido em Assis, 1181 ou 1182, filho de Pietro di Bernadone e Jeanne di Bernardone, o jovem Giovanni di Pietro di Bernadone, apelidado de Francesco por seu pai, notabilizou-se, entre outras coisas, por sua forma radical de vida. Sua trajetória se encontra, principalmente, em seus testamentos e nas fontes franciscanas. São Francisco nasceu em uma família abastada, cercado de luxos e privilégios. Seu pai era um próspero comerciante de tecidos, e sua mãe era de origem francesa. Desde jovem, Francisco buscava prazeres mundanos e se preocupava em ganhar prestígio social. A ideia de se dedicar a uma vida de pobreza estava muito distante de seus pensamentos naquela época.
Em 1202, Francisco participou de uma batalha entre Assis e Perugia, lutando ao lado de seus concidadãos. A batalha de Collestrada resultou na derrota de Assis, e Francisco foi capturado pelos inimigos. Ele passou cerca de um ano nas duras prisões de Perugia, onde sofreu consideravelmente.
Já em 1204, após ser resgatado por seu pai e retornar a Assis, Francisco estava profundamente marcado pela experiência do cativeiro e debilitado por uma doença que contraiu durante o período de encarceramento. Depois de um longo período de convalescença, decidiu que partiria para a Apúlia, com o intuito de lutar sob o comando de Walter de Brienne. No entanto, ao chegar em Spoleto, teve uma visão misteriosa que o fez reavaliar sua decisão. Seguindo o chamado interior, Francisco abandonou seus planos de luta e retornou para Assis.
Francisco enfrentou vários desafios em sua época, pois foi um tempo marcado por grandes conflitos, dentre eles de ordem política. Em meio a esse cenário, Francisco de Assis é uma das figuras mais amadas e inspiradoras da história cristã. Nascido em Assis, Itália, ele renunciou à riqueza e ao conforto de sua família para viver em total simplicidade, pobreza e comunhão com Deus e a natureza. Seu modo de vida refletia fielmente o Evangelho, buscando imitar Cristo em cada gesto, palavra e atitude.
Francisco via em toda a criação o reflexo do amor divino — chamava o sol de “irmão”, a lua de “irmã” e os animais de companheiros na fraternidade universal. Sua mensagem de paz, humildade e cuidado com a natureza transcende o tempo e as fronteiras religiosas, tornando-o um símbolo de fraternidade, ecologia e amor ao próximo.
Mais do que fundador da Ordem dos Franciscanos, São Francisco foi um reformador espiritual e um exemplo vivo de coerência entre fé e ação. Sua vida desafia ainda hoje, especialmente os jovens, a buscar um sentido mais profundo de liberdade e alegria — não nas posses, mas na entrega generosa ao amor e à simplicidade.
Por isso este trabalho tem como objetivo fornecer ao leitor um conhecimento mais aprofundado sobre a vida de São Francisco de Assis relatando acontecimentos históricos de sua época e a vida de um grande Santo que abraçou a pobreza e viveu uma vida baseada no Evangelho de forma radical.
1. SÃO FRANCISCO: DESAFIOS DE SUA ÉPOCA
O tempo de Francisco de Assis ficou denominado como baixa Idade Média, que vai do século XI ao XV, época que também é marcada por vários conflitos, dentre eles, os de ordem política. No auge do Feudalismo, a população medieval vivia um momento de transformação como o crescimento populacional: ‘‘a primeira manifestação desse crescimento é de ordem demográfica econômica, desde o ano 1000,mas de maneira regular e às vezes explosiva – como na Itália do norte e do centro”( Le Goff, 2005b, p.23). O sistema feudal, proporcionou uma maior concentração e aumento das famílias dos senhores e servos. Nesse ínterim, o Medievo foi marcado pelo fortalecimento da Igreja, uma vez que, por meio de alianças com os povos bárbaros, muitos acabaram por se converter, conferindo à pessoa do Papa muitos poderes, inclusive no tocante às questões espirituais.
Junto à consolidação da figura do pontífice, o clero também passou a desfrutar de poder e prestígio, configurando-se, assim, como classe social. Eles atuaram de maneira decisiva para a formação da mentalidade do homem medieval.
Seus ensinamentos versavam sobretudo na crença na vontade divina, assim como na luta contra o maligno, na recusa dos prazeres mundanos e na salvação da alma. Porém: O quase total controle da camada clerical sobre o conjunto da comunidade cristã acentua o azedume das críticas. Estas refletiam as transformações socioeconômicas da Idade Média Central e assumiram forma religiosa coerentemente com a psicologia coletiva da época. As novas manifestações espirituais, que forçaram a Igreja a rever certos conceitos, não vinham de grupos marginalizados, mal cristianizados. Eram produto da cultura intermediária, tanto no caso das manifestações que ficaram na ortodoxia (cistercienses, franciscanos, dominicanos) quanto no das que caíram na heresia (cátaros, valdenses, fraticelli). (Franco, 2001, p. 106).
O poderio da Igreja a não impediu o nascimento de grupos de contestação, apontados como movimentos heréticos, aqui entendidos de acordo com o conceito de Georges Duby(2017 , p. 208) que define o heréticos como ‘‘ o que escolheu, que isolou da verdade global, uma verdade parcial, e que a seguir, destina-se a sua escolha ’’. E como bem lembra Franco (2001, p. 106) ‘‘ todas essas correntes baseavam-se na pobreza e na penitência, forma de criticar o enriquecimento e a institucionalização da Igreja. Mas aquelas que não desejavam afastar-se da ortodoxia com o tempo viam-se influenciadas pelo mesmo enriquecimento e institucionalização’’.
Entre os movimentos citados, encontram-se os chamados Cátaros, ou Albigineses, como eram conhecidos em alguns lugares e os Valdenses. Sobre os Cátaros, foi um movimento que se desenvolveu no Sul da França e partes da Itália, a partir do século XII. Baseavam-se na dualidade entre o bem e o mal; considerando o corpo como mal e a alma como o bem; negavam o purgatório, a missa para os defuntos, o batismo para crianças e a transubstanciação.
Quantos aos Valdenses, estes acusavam a Igreja de ser conivente com a vida de luxo; não se submetiam a nenhuma autoridade eclesiástica e traduziram a bíblia para a língua vulgar, o que naquele momento era expressamente proibido. Essa atitude por parte desse grupo, torna-os: passíveis de ser igualmente caracterizada como heresia a emergente motivação de grupos de leigos que agora tinham como proposta exercer a ‘‘pregação não-autorizada ’’, como foi o caso de diversos grupos de valdenses, e também dos humiliati. A implicação deste aspecto é similar à das heresias que rejeitavam os sacramentos e autoridade dos padres. Assumir a função de “pregador’’ fora do âmbito da estrutura eclesiástica autorizada pela Santa Sé era questionar também o papel dos padres e monges como os únicos e necessários intermediários na relação com Deus. (Barros, 2010, p. 36)
A explosão desses movimentos, levou a Igreja a embates constantes , tendo em vista que muitos foram convertidos para as novas práticas. No entanto, apesar de todo o confronto e da força da Igreja: Nenhuma derrota é mais significativa do que a da Igreja do fim do século XII diante dos movimentos leigos francamente heréticos ou catalogados pela Igreja como tal. O movimento mais espetacular e mais grave é com certeza o catarismo baseando-se numa estrita oposição entre o bem e o mal. Os Cátaros se estendem pela baixa Renânia, algumas regiões da França e do Império Romano Germânico, do Loire aos Alpes, e principalmente pela França Meridional. A Provença e a Itália do Norte. (Le Goff, 2005b, p. 35).
A presença dos Cátaros nas mencionadas regiões colocou à prova todo o investimento católico, pois, a presença do catarismo, se caracterizou na ‘‘derrota do clero secular local, e dos cistercienses, aos quais o papado tinha confiado, a ação da pregação, depois das cruzadas’’ (Le Goff, 2005b, p.35). Esse período histórico, resultaria em conflitos dentro da própria França, entre os moradores do Norte e do Sul do país, criando um verdadeiro abismo entre eles, além do surgimento dos processos inquisitoriais.
Os resquícios dessas comunidades na Europa Medieval fazem com que o próprio estilo de vida escolhido por Francisco, necessite de reconhecimento papal, uma vez que: “na mesma época com Francisco, havia muitos grupos oriundos da religião apostólica romana, mas que buscavam, muitas vezes, fomentar a dissidência, ao proclamarem ideias não cristãs, não participavam de orações e poucos deles buscavam ajudar os necessitados ’’ ( Leluia e Bohomoletz, 2019, p.36). Enfim, o processo para acabar com heresias foi marcado por conflitos, embates, perseguição e mortes. Por isso o Bispo Guido de Assis preocupou-se em orientá-lo para que solicitasse, junto a Roma a aprovação eclesiástica, afastando, desse modo, qualquer dúvida sobre seu caráter de piedade e sua boa fé para a Igreja.
O que diferenciava Francisco dos demais grupos hereges daquela época era o seu amor pelos sacramentos e o seu desejo de viver conforme o Evangelho de Cristo, pois quase todas as heresias medievais são contra os sacramentos. Ora, Francisco tem necessidade, no mais fundo do seu ser, dos sacramentos e, mais que todos, do primeiro entre eles, a Eucaristia.
A Idade Média, no período correspondente à vida de Francisco de Assis, testemunha as melhorias agrícolas, com o aprimoramento de ferramentas e utensílios necessários ao desenvolvimento da agricultura. Além disso, o período foi marcado pelo chamado Renascimento Comercial, ocorrido, principalmente devido ao aumento de rotas de comércio, as quais trouxeram, entre outros benefícios, a disponibilidade de alimento, o que também ajudou no aumento populacional, pois à medida que as cidades cresciam, crescia também a necessidade pelos mais diversos produtos.
O consumo ia desde objetos de luxo até itens essenciais. Produto do fomento dessas atividades, destaca-se o surgimento das feiras que ajudaram na circulação das mercadorias. Inicialmente, elas aconteciam nos burgos, depois passaram a ocorrer em espaços mais amplos. As principais feiras ficavam nas cidades de Champanha, na França e em Gênova e Veneza, na Itália.
Ao discorrer sobre a Idade Média, buscou-se situar o homem em seu tempo. Perceber as relações que existiam naquele contexto, ajudará na percepção do homem de Assis.
2. O RETRATO DA PERFEIÇÃO: O HOMEM DE ASSIS
Giovani di Pietro Bernadone, apelido por seu pai de Francesco, viveu num período de profundas mudanças sociais e de guerras entre a nascente burguesia e a nobreza. Filho do próspero comerciante de tecidos Pietro di Bernadone, Francisco ansiava ascender socialmente para a nobreza tornando-se um vencedor cavalheiro. Nascido em 1181 ou 1182, em Assis, Itália, Francisco não se diferenciava muito de tantos outros jovens de sua época , e como eles, também almejava reconhecimento e fortuna. Filho de uma burguesia comercial e sem títulos, o desejo de se tornar um cavalheiro, enchia-lhes os olhos e o coração.
Embora Tomás de Celano trate Pietro di Berdadone como um homem rico, historiadores apontam que: “ a fortuna de que dispunha graça ao pai era inferior à maior parte dos nobres ’’ (Le Goff, 2005, p.60). O jovem Francisco, possivelmente, fora instruído de acordo com a educação vigente no período, chegando a participar das aulas na Paróquia de São Jorge: “aprendeu o latim e o italiano mesmo tendo-a frequentado apenas durante três anos, conforme a educação precária e irregular da época, quando a maioria das pessoas era praticamente analfabetas.’’ (Leluia e Bohomoletz, 2019, p. 36).
Provavelmente, tenha aprendido alguns rudimentos de Matemática, tendo em vista o ofício do pai e, por consequência, se tornaria seu em algum momento da vida. Sua educação foi precária, assim como a maior parte da população do Medievo, pois até mesmo, os mais abastados encontravam dificuldades no tocante ao acesso ao ensino. Francisco cresceu usufruindo de uma vida confortável e cercado de benefícios que a boa condição de seus pais podia proporcionar-lhe. Assim, “durante a sua juventude, entregaram-se às alegrias da vida cortês, compunha canções de amor…” (Duby, 1978, p. 142). Cresceu sendo “galanteador, amante da beleza, sob todas as formas de sedutor nas festas juntos à juventude local” (Leluia e Bohomoletz, 2019, p.13).
Admirador da poesia, em especial da francesa, dedicava-se a viver conforme seu tempo permitia, participando de serenata pela cidade, dos jograis na praça de Assis, cantando e festejando, um verdadeiro esbanjador. Por sua natureza festeira, agregava a muitos. Vestia-se ao melhor estilo da nobreza, embora não o fosse, e tinha na gentileza uma forte característica.
Francisco era apaixonado e inquieto, talvez, por isso, quando o seu coração se aquietou, ele conseguiu abandonar tudo que conhecia, seguindo a voz do crucificado. Renunciou ao antigo projeto de vida quando entregou as vestes ao seu pai terreno Pietro di Bernadone. Caroli(1999, p. 587) nos lembra que Francisco não foi o único a vivenciar a pobreza no seu tempo, pois outras manifestações já se faziam conhecidas. Quando, enfim, despojou-se de si, imitando a Pedro Valdo, quis despojar-se de tudo, quando apresentou-se nu diante do pai, lançando-lhe aos pés os seus adornos e os seus dinheiros. Foi o bispo da cidade que o cobriu com seu manto. Permaneceu na igreja, fiel( Duby, 1978, p.142). Tanto que ao congregar seus irmãos frades, os conclamava na ajuda e na boa convivência com o clero:
Somos enviados como ajuda aos clérigos para a salvação das almas, de forma que, se algo faltar neles, seja suprido por nós… Irmãos, sabeis que e muito do agrado de Deus a conquistas das almas, e isso podemos consegui-lo melhor em paz com os clérigos do que com a discórdia… Se fordes filhos da paz, ganhareis os clérigos e o povo isto é mais agradável a Deus do que ganha somente o povo, deixando o clero escandalizado, cobrir suas faltas e suprir seus muitos defeitos e, quando tiverdes feito isto, sede ainda mais humilde (Espelho da Perfeição – 3, cap. 14).
Após sua conversão, foi assim descrito na Prima Vita (83, 8-10) de Tomás de Celano: Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto largo e fino, testa plana e curta, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional, delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas, têmporas achatadas, língua pacificadora, ardente e penetrante, voz forte e doce, clara e sonora, dentes unidos e alinhados e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e um tanto rala.
Assim apresentado, não parece que seja um homem atraente, porém o descuido com o próprio corpo, algo presente na mentalidade da Idade Média, além das questões relacionadas à dor físicas como forma de purificação, pois na “Tradição judaica-cristã, a dor é mostrada como uma prova ou um castigo imposto por Deus quando encolerizado.” (Duby, 2017, p. 191).
Francisco, por sua radicalidade, expunha seu corpo a muitas dores. Para isso, Duby(2017), informa que “os homens são naturalmente pecadores. Portanto é normal que sofram. Não apenas normal mas necessário. Furtar-se ao sofrimento não é ir de encontro à vontade divina.”(p. 191). Logo, a mentalidade da época dava os subsídios para esse comportamento. Embora, com a fisionomia maltratada e de “aspecto muito desprezível e pequeno no tamanho, e que por esse motivo se passava por um vil pobrezinho” […] (Le Goff, 2005b, p. 105), havia algo de contagiante nele, como nos tempos da juventude, por isso os Fiorette nos informam que continuava a “seduzir multidões”.
3. ENTRE O PODER E A FÉ
Na época em que viveu Francisco, existiam diferentes movimentos, muitos deles de cunho herético. Dentre eles destacamos os Pobres de Cristo de Roberto de Abrissel, Cátaros e Humilhados, os Valdenses e os Pobres Reconciliados. Teria sido Francisco influenciado por eles? Na Legenda dos Três Companheiros 25, na Prima Vita de Tomás de Celano mostram que a inspiração de Francisco era baseada nos evangelhos nos trechos que Cristo enviou seus discípulos a pregar. Ao ouvir o evangelho, Francisco disse: “É isso que eu quero cumprir com todas as minhas forças”. A pobreza franciscana foi inspirada nos evangelhos de Mateus, 10.7-19; Marcos, 6.7-12 e Lucas, 10, 1-16.
Francisco ouviu na festa do Apóstolo Matias, em 24 de fevereiro de 1209, na capela da Porciúncula o trecho em que Cristo recomendava aos discípulos a pregar: que não levassem no caminho nem ouro nem prata, nem sacola, nem alforje, nem pão nem cajado, e não usassem nem calçados, nem duas túnicas (Caroli, 1999 p. 587).
Francisco abandonou radicalmente o sonho de poder que o perseguiu durante toda a sua existência. O filho de dona Picca também conviveu com as disputas pelo poder entre os membros da sua própria ordem. Com o crescimento do número de irmãos, no início do século XIII, inevitáveis lutas pelo poder que se instalam em todas as relações sociais apareceram em todas as instâncias: estado, grupo sociais, família (Foucault, 1989). Também na nascente família franciscana de então as relações de poder foram travadas de modo explícito. A opção de viver a pobreza evangélica dentro da Igreja Medieval na qual as instâncias do poder e da riqueza estavam muito presentes, mesmo diante de tais limitações, Francisco não abandonou seguiu fielmente a recomendação do crucificado de São Damião “Francisco, vai e restaura a minha casa” (Celano, 2021, p.137).
É dramática a aflição de Francisco de Assis, dividido entre o ideal desnaturado e sua ligação apaixonada com a Igreja e à ortodoxia, e ele acaba aceitando, mas se retira. Pouco antes da sua morte (1226), na solidão de Verna, os estigmas foram o fim, o resgate e a recompensa de sua angústia (Le Goff, 2005a, p. 79).
Viveu num período marcado por guerras entre a burguesia que se estabelecia e a nobreza que queria manter o seu poder, Francisco, que sonhava tornar-se cavaleiro, com esse intuito inscreveu-se para participar da guerra, Francisco tornou-se prisioneiro e enfermo. Em 1205, partiu para a luta. Em Espoleto, recebeu, em sonhos, ordem para voltar para Assis. A partir daí os ideais de Francisco começaram a se transformar a ponto de se tornar um paradoxo na sua época e nas épocas futuras. O que faria um jovem rico, com poder de liderança e ambição abandonar tais valores? Essa decisão era natural na sociedade e na sua família de sangue?
Aos poucos Francisco de Assis foi-se distanciando dos costumes e dos anseios da burguesia e da nobreza do seu tempo, preocupando-se com a parcela mais pobre da população de Assis. A expansão econômica do Ocidente no século XII não teve apenas consequências benéficas. Ao mesmo tempo em que arrancava a sociedade à estagnação, aumentava a distância que separava ricos e pobres. (Vauchez, 1995, p. 67).
Diz Celano (2021) que, libertado da prisão, pouco tempo depois tornou-se ainda bondoso para com os necessitados. Resolveu, desde então, não desviar o rosto de pobre nenhum e de ninguém que ao pedir lembrasse o amor de Deus.
Como se lê na Legenda Maior I,51, escrita por São Boaventura a partir daí, afastando-se do tumulto da negociação pública, suplicava devotamente a clemência suprema para que se dignasse a mostrar-lhe o que teria de fazer. Celano, no capítulo 9,21 da Primeira Vida mostra aspectos da restauração das igrejas como no episódio com o crucifixo de São Damião (IC, 8, 18) e da Porciúncula.
Depois que o santo de Deus trocou de hábito e acabou de reparar a mencionada igreja, mudou-se para outro lugar próximo da cidade de Assis. Aí começou a edificar outra igreja abandonada e quase destruída, e desde que pôs as mãos à obra não parou enquanto não terminou tudo.
Dali passou a outro lugar, chamado Porciúncula, onde havia uma antiga igreja da Bem Aventurada Virgem Mãe de Deus, mas estava abandonada e nesse tempo não era cuidada por ninguém. Quando o santo de Deus a viu tão arruinada, entristeceu-se porque tinha grande devoção para com a Mãe de toda bondade, e passou a morar ali habitualmente. Estava no terceiro ano de sua conversão. Por essa época, usava um hábito de ermitão, cingido por uma correia, e andava com um bastão e com os pés calçados. (I C, 9,21,1,2,3)
Logo depois de se desligar do seu pai, Pietro di Bernadone, “mediatamente “ Francisco”, diz Tomas de Celano, “vai pela floresta cantando louvores em francês” (Caroli, 1999). Não perdeu tempo, foi edificar a igreja, certo da sua fé e obediência a Cristo. Percebe-se profunda mudança interior e exterior em Francisco, as quais chamam a atenção, chocam e provocam. A modificação interior e exterior de Francisco de Assis chama a atenção, choca e provoca interpretações distintas dos seus hagiógrafos com relação a esse episódio do crucifixo de São Damião, como aponta Visalli, 2013: Tomás de Celano toma cuidado de imputar a Francisco o entendimento da mensagem metafórica da imagem, ainda que tenha optado por iniciar sua tarefa pelas expressões mais materiais, a reforma do lugar. Apresenta uma outra perspectiva, a de que “o servo de Deus” não teria entendido o significado da grandeza de sua missão e por isso se dedicou à reconstrução da igreja material(2013, p. 96).
Sabe-se que, independentemente dos movimentos heréticos como os valdenses que pregavam a pobreza e até das disputas posteriores pela herança do carisma entre os diferentes ramos do franciscanismo, a maturidade e o chamado evangélico do Senhor a Francisco foi se aprofundando com o tempo. As atitudes do Pobre de Assis mostra como ele foi de encontro, de modo pacífico, aos ideais do seu tempo. Vauchez (1995) chama atenção a respeito dos movimentos religiosos do século XII do seguinte modo:
À custa de conflitos e condenação, que às vezes conduziram à beira da heresia, os movimentos religiosos populares do século XII conseguiram que a igreja admitisse os principais elementos de uma espiritualidade que, por ter sido mais vivida que formulada, não deixava de ter uma importância considerável na história do cristianismo medieval. Os historiadores tendem a negligenciá-la porque ela permanecia implícita. Entretanto, sem esse novo clima, não se explicaria nem o conteúdo nem o sucesso da mensagem franciscana (Vauchez, 1995, p.122).
O testemunho de São Francisco de Assis aponta de forma clara a sua mudança singular, dita por ele mesmo: O Senhor assim deu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: porque, como estava em pecados, parecia-me por demais amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles. E, afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo, e depois parei um pouco e saí do século (nº 1-3).
O próprio Francisco aponta como a “saída do século” foi para ele um ato de profunda convicção ao ponto de transformar aquilo que antes ele achava repulsivo como o contato com os leprosos, tornando-se motivo de júbilo ao seu criador.
Em 1225, bem próximo de receber a visita da irmã, Francisco compôs em língua vulgar o lindo poema Cântico do sol ou das criaturas considerado um marco inicial da poesia italiana. Com relação ao ligar que a poesia ocupou na sociedade medieval, Pernoud ensina que: Os homens da Idade Média consideravam a poesia como uma forma natural de expressão; para eles, ela faz parte da vida, ao mesmo título que as necessidades materiais ou, mais exatamente, como as faculdades próprias do homem como o pensamento e a linguagem. O poeta não é para eles um anormal, é ao contrário um homem completo, mais completo do que não é capaz de criação artística ou poética (Pernoud 1997, p. 194).
A beleza do cântico do Sol, composto quando ele estava no auge de sua doença, sem força recorrendo, por indicação do bispo e de Frei Elias, a vários médicos, sua enfermidade se agrava a cada dia. A doença não diminuiu a alegria e a sensibilidade do Poeta de Assis. “O cântico das criaturas é o canto do homem plenamente reconciliado consigo mesmo, com a natureza, com seus semelhantes, com o próprio Deus”(Caroli, 1999, p. 74).
CÂNTICO DO SOL
Altíssimo, onipotente, bom Senhor, Teus são o louvor, a glória e a honra e todo bendizer.
A ti somente, Altíssimo, são devidos E homem algum é digno de sequer nomear-te. Louvado sejas meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas, Especialmente o senhor irmão sol, pois ele é dia e nos ilumina por si.
E ele é belo e radiante com grande esplendor. E porta teu sinal, ó Altíssimo.
Louvado sejas meu Senhor, Pela irmã lua e as estrelas, no céu as formaste luminosas
e preciosas e belas. Louvado sejas meu Senhor, Pelo irmão vento e o ar e as nuvens,
E o céu sereno e toda espécie de tempo, pelo qual as criaturas dás sustento.
Louvado sejas meu Senhor, Pela nossa irmã água, a qual é muito humilde e preciosa e casta. Louvado sejas meu Senhor,
Pelo irmão fogo, Pelo qual iluminas a noite; e ele é belo e alegre
e vigoroso e forte. Louvado sejas meu Senhor, Por nossa irmã a mãe terra, Que nos alimenta e governa e produz variados frutos
e coloridas flores e ervas. Louvado sejas meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor, e suportam enfermidade e tribulações.
Bem-aventurados os que sofrem em paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas meu Senhor, por nosso irmão a morte corporal, da qual ninguém pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Felizes os que estão na tua santíssima vontade, Que a morte segunda não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor e rendei-lhe graças e servi-lhe com grande humildade! (Esser e Hardick, 1982, p.182). O amor incondicional a Jesus Cristo e à fraternidade são as principais características do carisma do Pobrezinho de Assis.
4. O CHAMADO
No ano seguinte, 1205, com 24 anos, começou a dar os primeiros passos em direção a sua conversão espiritual. Ele se distanciou dos antigos amigos e do estilo de vida despreocupado que levava, buscando intensificar sua vida de oração. Um marco importante desse período foi o encontro de Francisco com um leproso, a quem ele não apenas ofereceu ajuda, mas também o beijou, demonstrando um profundo ato de caridade e humildade. Nesse mesmo ano, teve um encontro com o crucifixo na igreja de São Damião, que teve um papel decisivo em sua jornada espiritual. Além disso, fez uma peregrinação a Roma, onde teve sua primeira experiência concreta de pobreza.
Em 1206, Francisco tomou uma decisão radical ao renunciar formalmente aos bens de seu pai, distanciando-se completamente das riquezas que o haviam cercado durante a juventude. Passou a se dedicar à restauração de três pequenas igrejas: San Damiano, San Pietro della Spina e a Porciúncula. Esses atos de restauração foram simbólicos de sua busca por reconstruir sua própria vida espiritual e encontrar um novo propósito.
Dois anos depois, em 1208, no dia 24 de fevereiro, dia de São Matias, depois de ter ouvido um trecho do Evangelho segundo Mateus na Porciúncula, na zona rural de Assis, Francisco sentiu firmemente que devia levar a Palavra de Deus às ruas do mundo. Assim começou a sua pregação, primeiro nos arredores de Assis. Esse momento foi decisivo para amadurecer sua vocação, impulsionando-o a seguir o caminho apostólico. Seu amor pela pobreza tornou-se a marca de sua espiritualidade. Para ele, imitar a vida de Cristo significava renunciar a qualquer forma de luxo ou poder, e viver na simplicidade absoluta.
Ele abandonou todos os bens materiais para viver em extrema pobreza, seguindo os passos de Cristo de maneira radical. São Francisco fundou a Ordem dos Frades Menores, também conhecida como Franciscanos, e dedicou sua vida à pregação do Evangelho e ao cuidado dos pobres. Sua mensagem de paz, simplicidade e fraternidade universal ecoa até os dias de hoje.
Profundamente asceta, foi também conhecido como “il poverello d´Assissi” ou “o pobre de Assis” pela escolha de despojar-se de todos os bens materiais e levar uma vida mínima, em total harmonia de espírito. Além do seu trabalho espiritual, Francesco, graças ao Cântico das Criaturas, é reconhecido como um dos iniciadores da tradição literária italiana.
5. FUNDAÇÃO DA ORDEM FRANCISCANA
Em 1209, São Francisco atraiu um grupo de seguidores que, inspirados por sua pregação e exemplo de pobreza, também decidiram adotar o mesmo estilo de vida. Juntos, eles formaram a Ordem dos Frades Menores, popularmente conhecida como os Franciscanos. A ordem recebeu a aprovação do Papa Inocêncio III, e sua missão principal era pregar o Evangelho e servir aos pobres.
Regressando de Roma, os frades instalaram-se numa “cabana” perto de Rivotorto, na estrada para Foligno, local escolhido por ser próximo de um hospital de leprosos. Este local, porém, era úmido e insalubre, e os frades tiveram que abandoná-lo no ano seguinte, instalado-se na pequena abadia de Santa Maria dos Anjos, na planície de Tescio, na zona da Porciúncula.
Abandonada no meio de um bosque de carvalhos, a abadia foi concedida a Francisco e seus frades pelo Abade da igreja San Benedetto del Subasio.
O movimento franciscano surgiu no contexto do vasto movimento pauperístico do século XII, como uma resposta à corrupção dos costumes eclesiásticos da época, marcada pelo envolvimento excessivo com interesses materiais e políticos, especialmente durante a sangrenta luta pelas investiduras.
Além disso, a ascensão das cidades-estados ricas trouxe novas desigualdades sociais. Embora uma parte da população tenha se beneficiado com o crescimento das classes mercantis, o “popolo grosso” (a burguesia) começou a ganhar poder em detrimento da antiga nobreza feudal. Ao mesmo tempo, grandes camadas de camponeses mais pobres foram deixados à margem, o que levou a uma crise no tecido social medieval, algo que certamente impactou Francisco enquanto atuava como mercador.
Os valores centrais da vida de São Francisco e de seus seguidores são a “pobreza”, “obediência” e “castidade”. Após um período de vida solitária, Francisco começou a atrair companheiros que desejavam imitar seu exemplo. Sua humildade e ascetismo o tornaram conhecido como Imitador Christi (Imitador de Cristo). A partir daí, iniciou-se a experiência da fraternidade, onde cada membro era um Imitator Francisci (Imitador de Francisco) e, consequentemente, um imitador de Cristo.
Fraternidade: Os frades não devem viver sozinhos, mas cuidar uns dos outros com amor e dedicação, estendendo essa mesma atenção a todas as criaturas, humanas ou não, em uma fraternidade universal que reconhece toda a criação como obra de Deus.
Humildade: Colocar-se abaixo de todos, servindo aos mais pobres para servir a Deus, e libertar-se dos desejos terrenos que afastam o homem do bem e da justiça.
Pobreza: Renunciar à posse de qualquer bem, compartilhando tudo o que é recebido com os irmãos, especialmente com os mais necessitados.
5.1 Encontro com Santa Clara
Uma das amizades mais significativas da vida de São Francisco foi com Santa Clara de Assis. Esta nova “forma de vida” atraiu também as mulheres: a primeira foi Chiara Scifi, filha de um nobre assisense. Tendo fugido da casa de seu pai na noite do Domingo de Ramos de 28 de março de 1211 (ou 18 de março de 1212), ela chegou em 29 de março de 1211 (ou 19 de março de 1212) a Santa Maria dos Anjos, onde pediu a Francisco que pudesse se juntar a sua ordem, e onde de madrugada recebeu o hábito religioso do santo.
Inspirada por seu exemplo, Clara decidiu seguir seus passos e, com sua ajuda, fundou a Ordem das Clarissas. Assim como Francisco, Clara dedicou sua vida à pobreza, ao serviço aos pobres e à oração.
Francisco a colocou por algum tempo primeiro no mosteiro beneditino de Bastia Umbra, depois no de Assis. Mais tarde, quando outras meninas (incluindo a irmã de Clara, Agnese) seguiram o seu exemplo, fixaram residência na igreja de São Damião e deram início ao que futuramente seriam as Clarissas, entre as quais se destacaram santas como Caterina de Bolonha, Camilla Battista de Varano, Eustochia Calafato. Nos mesmos anos criou o convento de Montecasale, onde instalou uma pequena comunidade de seguidores e onde parava repetidamente nas suas viagens.
5.2 O nome do Papa Francisco
O Papa Francisco tem uma forte ligação com São Francisco de Assis, tanto que escolheu seu nome como Pontífice. Essa conexão reflete o compromisso com o Evangelho, que São Francisco viveu de forma prática, transformando a Palavra de Deus em ações e gestos concretos. Portanto, ao adotar esse nome, o Papa também segue o caminho simples, mas desafiador, da vivência do Evangelho, demonstrando que seu plano pastoral é baseado na mensagem de Cristo.
Em tempos de incerteza e desafios para a Igreja, o renascimento só pode vir da aceitação do Evangelho em sua simplicidade, para que todos possam compreendê-lo, mas também em sua exigência, que muitas vezes causa tensão. A ligação entre São Francisco e o Papa Francisco reside justamente nessa adesão ao Evangelho de forma simples, mas exigente, no cotidiano.
6. FRANCISCO NO MUNDO MODERNO
Antes de ser santo, Francisco foi um jovem inquieto, vaidoso, amante da liberdade, dos amigos e das festas. Filho de um rico comerciante, conheceu o conforto e os sonhos de glória. Sua juventude foi marcada por ambições sociais e ideias cavaleirescas. No entanto, uma sucessão de experiências — a guerra, a prisão, a doença e o encontro com leprosos — levou-o a uma profunda transformação interior.
O homem Francisco, a partir de suas experiências e de seu olhar para o mundo, deixou várias contribuições; revolucionou seu tempo, por meios de atitudes que se diferenciava do modo Medieval que priorizava atitudes como a ambição, misoginia, interpretação simbólica, entre outras atitudes que ele combatia. Para isso, ele apresentou proposições, que visavam um olhar universo para com as pessoas e o mundo. Francisco deixou, em seu testamento de vida, sua herança e modelos que podem ser seguidos por diversos povos e nações. Entre o fim do século XIX e o início do século XX, alguns historiadores começaram a exaltá-lo considerando-o um dos símbolos da modernidade, entre eles, o francês Émile Gebhart, que comparava a Frederico II, vendo em ambos os grandes modernos da Idade Média (Le Goff, 2005b, p. 102).
Contribuiu para o mundo no tocante à diplomacia, quando se ofereceu para intermediar o diálogo com o sultão AI-Kamil, devido a falta de habilidade do Cardeal Pelagio, para intermediar questões relacionadas à V Cruzada, e mesmo que, a princípio pensasse como um homem medievo, para o qual a conversão de outros povos ao cristianismo seria necessária, percebeu que o caminho era o respeito à forma de vida e crença de cada indivíduo. Essa lição de diplomacia foi apresentada aos povos do mundo, numa tentativa clara de estabelecer o diálogo como um caminho seguro e fraterno de convivência. Essa experiência, segundo os relatos,fez com que, ao voltar da missão, propusesse “que , de modo semelhante à religião islâmica, houvesse uma vez ao dia convocação para as preces”(Leluia e Bohomoletz, 2019, p. 57).
Além de propor a radicalidade do Evangelho de Cristo, de modo que todos pudessem passar do Evangelho à vida e da vida ao Evangelho, acreditava nas formas radicais de igualdade e democracia na tomada de decisões. Essa ideia foi expressa na criação dos Capítulos, espécie de assembleia onde os irmãos deveriam decidir sobre a vida e a caminhada além dos ministros para sua ordem, os quais deveriam servir e não ser servidos.
Devido a seu espírito pacificador, Francisco deixou como herança a chamada “objeção de consciência”, hoje adotada em alguns países, essa prática dá ao indivíduo a oportunidade de recusar, por exemplo, a participação em guerras. Sendo cortês, apresentou ao mundo o respeito às mulheres e o amor a toda criatura, deixando, assim, o legado de fraternidade universal. O respeito às mulheres é sentido quando da formação da Ordem das Clarissas que, embora compartilhasse do mesmos desejos manifesta o pensamento de sua fundadora Clara de Assis, ou seja, uma ordem com o jeito feminino, ao contrário do que ocorria no período, que. muitas vezes, eram apenas uma ordem ou congregação feminina, mas com moldes masculinos.
Nos dias atuais, de forma bem específica, em 19 de novembro de 2020, o Pontífice Francisco convocou os jovens para viver a “Economia de Francisco” que tem como objetivo, a partir dos ensinamentos de Francisco de Assis, a construção de uma economia integral, centrada na pessoa humana e na criação, em busca de uma vida melhor na casa comum.
No modelo exposto, com a inspiração das Encíclicas Evangelïi Gaudium e Laudato Si, a proposição de Economia de Francisco acredita em uma ecologia integral, pois só é possível pensar em desenvolvimento aliado ao cuidado da criação, com a participação dos empobrecidos nos processos de construção das políticas sociais econômicas; no bem viver, porque o capitalismo é um sistema econômico cujas as leis próprias geram exclusão e desigualdade; na superação da crise que se dá por caminhos em que tudo está interligado; na potências das periferias vivas; na economia a serviço da vida; nas comunidades como saída; na educação integral e na solidariedade e clamor dos povos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória de Francisco de Assis, analisada à luz do contexto sócio-histórico da Baixa Idade Média e dos pressupostos da História Cultural, revela uma figura cuja relevância transcende os limites temporais de sua existência. Francisco foi profundamente marcado pelas possibilidades e desafios de sua época, o que não diminui sua originalidade nem sua importância histórica.
Sua opção por reformar a Igreja a partir de dentro, por meio da vivência radical do Evangelho e da valorização dos sacramentos, especialmente a Eucaristia, destaca-se como uma resposta singular às tensões religiosas e sociais de seu tempo. Em contraste com os movimentos heréticos, Francisco reafirma sua fé e busca a aprovação eclesiástica, tornando-se um modelo de renovação espiritual que permanece atual.
Ao dialogar com autores como Foucault, Le Goff, Duby e Franco, este estudo procurou evidenciar não apenas o papel histórico de Francisco, mas também sua capacidade de inspirar práticas contemporâneas pautadas na fraternidade, na humildade e no cuidado com a criação. Em tempos marcados por governos autoritários e desumanos, sua mensagem se mostrava urgente e necessária, abrindo caminhos para o diálogo, o respeito entre os povos e a construção de um mundo mais justo e solidário.
Conhecer Francisco de Assis, portanto, é mais do que revisitar o passado: é reconhecer a potência transformadora de sua vida e legado, que continuam a convocar indivíduos e comunidades à santidade cotidiana e ao compromisso com o bem comum.
Portanto, mesmo depois de tantos anos, o espírito de Francisco nunca foi tão atual. Ele foi um homem à frente de seu tempo, isso garante sua originalidade e sua importância e mostra o quanto ele estava determinado a apresentar uma forma de vida fraterna possível. Sua herança pode ser uma das vias para um mundo igualitário. Sua presença nunca foi tão necessária. Falar de Francisco de Assis é abrir caminhos para inspiração aqueles que buscam vida sacramental.
1 Biografia de São Francisco de Assis, escrita por São Boaventura, frequentemente encontrada em contextos religiosos e acadêmicos.
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