FILHOS E FILHAS DE DEUS: O QUE ISTO SIGNIFICA? – Carta de São Paulo aos Gálatas (4ª parte)
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Irmãos e irmãs muito amados!
Este encontro trata do principal tema desenvolvido na Carta aos Gálatas. É o tema da liberdade que Cristo nos trouxe. Todos nós queremos viver em liberdade. Nem todos, porém, sabem escolher e perseverar no caminho certo. Hoje em dia, se não estivermos atentos, somos levados pelas ideias dominantes, manobrados pelos interesses dos poderosos, atraídos pelos modismos que nos induzem à superficialidade, contaminados pelo veneno do individualismo e da indiferença, presos na arapuca das ofertas de consumo de coisas não essenciais à vida… E, pouco a pouco, somos jogados no vazio existencial. A proposta de liberdade que o Espírito Santo nos oferece através da Carta aos Gálatas é, mais do que nunca, necessária para resgatar o verdadeiro sentido da existência neste mundo. Uma pessoa verdadeiramente livre é aquela que sabe conduzir sua vida de acordo com o Evangelho de Jesus Cristo. Antes do comentário abaixo é bom ler, com muita atenção, o capítulo 5 da Carta aos Gálatas.
Cristo nos libertou (Gl 5,1-12)
Nos encontros anteriores pudemos perceber a grande preocupação de Paulo com relação à influência dos pregadores “judaizantes” junto às comunidades da Galácia. Estes pregadores insistiam na obrigatoriedade de praticar a lei judaica como garantia de salvação. Diziam que as obras feitas conforme determinava a lei de Moisés funcionavam como “crédito” diante de Deus e, assim, a pessoa seria justificada pelos seus méritos. Deus seria obrigado a “pagar” a cada pessoa conforme os créditos que ela possuía.
Acontece que a maioria da população da região da Galácia não pertencia ao povo judeu e nem conhecia a tradição religiosa dos judeus. Ao conhecer o Evangelho de Jesus Cristo através da pregação de Paulo e sua equipe, aprenderam que a salvação se dá pela fé e não pelas obras da lei. Tornaram-se, assim, seguidores de Jesus e, por isso, participantes de comunidades cristãs. A vida nessas comunidades baseava-se no amor mútuo, sem discriminação, como está escrito em Gl 3,28: “Agora não há mais judeu, nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”. Este jeito de viver e de se relacionar caracteriza a verdadeira liberdade. Foi para este tipo de liberdade que Cristo nos libertou.
Vários cristãos, porém, deixaram-se conduzir pelos ensinamentos dos judaizantes e eram circuncidados. Paulo alerta, então, que ao aceitar a circuncisão estão se comprometendo a cumprir toda a lei que incluía normas de higiene, cuidados com relação aos estrangeiros, direitos diferentes entre homens e mulheres, até a proibição de fazer o bem no dia de sábado… Voltando a este modo de viver significa romper com Cristo e cair fora da graça que ele nos trouxe; significa rejeitar a verdadeira liberdade.
Liberdade ou escravidão? (5,13-26)
Depois de esclarecer a respeito da fé em Jesus Cristo que nos torna verdadeiramente livres, Paulo apresenta o caminho que devemos percorrer como pessoas livres. Ele define este caminho como “vida no Espírito”. Ele adverte que, mesmo quando nos libertamos do legalismo, podemos cair em outra escravidão que é a escravidão dos instintos egoístas ou “obras da carne”. É preciso, portanto, que tenhamos consciência de que há duas maneiras fundamentais de viver: seguindo as inspirações do Espírito Santo ou seguindo os instintos egoístas.
O Espírito Santo nos é dado a partir do Batismo. Por este Sacramento mergulhamos na graça divina e entramos na dinâmica de “morrer” para tudo o que estraga a dignidade de filhos e filhas de Deus. Em outras palavras: de “criaturas velhas” passamos a ser “novas criaturas”, capazes de conduzir-se sob a luz e a força do Espírito de Deus. É Ele que nos anima a caminhar no mesmo amor que Jesus nos amou e perseverar até o fim. É o Espírito que nos ajuda a criar relações de fraternidade e de justiça. Ele nos capacita a sermos sujeitos promotores de uma nova sociedade.
Em que consiste a liberdade cristã?
São Paulo ensina o que ele próprio aprendeu a partir de seu encontro com Jesus no caminho de Damasco. Percebeu que o amor de Deus que se manifestou em sua própria vida ultrapassa todos os méritos pessoais. Foi pela graça do Espírito Santo que ele se tornou uma “nova criatura”, passando a ter uma nova mentalidade a respeito do plano de salvação de Deus revelado na pessoa de Jesus Cristo. Sentiu-se plenamente livre para fazer o bem sem estar preso a nenhum sistema legalista. Percebeu, com toda convicção, que este é o modo que agrada a Deus e constitui-se caminho de realização para o ser humano. Por isso, Paulo se lança na missão de abrir as portas para que todas as pessoas pudessem entrar nesta nova condição de vida. Torna-se um missionário incansável e zeloso pelas comunidades que vão se formando a partir de sua ação evangelizadora.
Paulo declara com bom propósito: “Foi para sermos livres que Cristo nos libertou”; também: “Vocês foram chamados à liberdade, irmãos”… Diante de afirmações como estas, surgiu no meio dos cristãos a pergunta sobre o que, realmente, consistia esta liberdade. Paulo, então, sente-se na obrigação de esclarecer o que significa a liberdade na prática do dia a dia. Não pode ser entendida como relaxamento de condutas éticas e morais; não é libertinagem ou permissividade; não pode ser sinal verde para a “carne”, isto é, para os instintos egoístas. Liberdade cristã consiste exatamente em fazer o que Jesus insistiu com os seus discípulos: estar a serviço uns dos outros, não mais pela obrigatoriedade de uma lei, mas pela caridade, pelo amor que nos une. Praticando o amor mútuo cumprimos toda a lei de Deus.
Frutos bons X frutos maus
Está muito bem esclarecido no capítulo 5 da Carta aos Gálatas quais são os frutos produzidos por quem vive segundo o Espírito e os frutos produzidos por quem vive segundo os instintos egoístas. Dependendo da opção fundamental que fazemos, colheremos frutos bons ou frutos maus. Na lista dos frutos maus percebe-se o comportamento humano não guiado pelo amor mútuo e sim pela exploração do outro para a própria satisfação (fornicação, impureza, libertinagem, orgias, bebedeiras), pela competição e divisão (ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas), pelo desrespeito a Deus (idolatria, feitiçaria), estragando assim a própria vida, a vida da família e da sociedade.
Os frutos bons são produzidos pelo comportamento de quem segue o Espírito Santo e se referem à relação com o próximo: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio. Quem se relaciona com o próximo desta maneira demonstra que tem ótimo relacionamento com Deus, pois “Deus é amor”. E, ao final das contas, o que Ele deseja para os seus filhos e filhas é que se amem como Jesus amou. Este é o jeito de ser verdadeiramente livre.
Para dialogar em pequenos grupos:
- Ler, reler e comentar o capítulo 5 da Carta aos Gálatas.
- “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”: o que isso significa na prática?
- Que outros pontos nos chamaram a atenção neste encontro?
- Preces espontâneas e concluir com o texto: Gl 3,26-29.
Celso Loraschi