Diocese de Caçador

Mística

A nossa missão é atualizar as palavras e a prática libertadora de Jesus Cristo, o missionário do Pai. Por isso, é fundamental conhecer a pessoa de Jesus, seu projeto, suas exigências e a esperança que nele se sustenta. Após isso, é necessário segui-lo, abrindo novos caminhos.

Alguns traços importantes da mística

Percebemos que Jesus sempre está junto do seu povo, em toda situação de sofrimento, de luta, de esperança e de alegria. A vida do povo pobre, é o “chão” para a ação de Deus, de Jesus e do Espírito Santo. A confiança e a segurança no Pai, Abbá, coloca-nos numa relação íntima com Deus. O Espírito suscita a ação do povo pobre, para torná-lo consciente, para conquistar sua dignidade e liberdade e para construir o Reino. É o Espírito que anima e revitaliza a vida.

Para seguir Jesus, precisamos ter:

Confiança em Deus e disponibilidade. Jesus confia radicalmente no Pai e se entrega em suas mãos. O Mestre também ensina essas duas atitudes aos discípulos. Nossa vida é agitada e somos influenciados pela velocidade dos acontecimentos. Porém, Deus não nos livra nem nos afasta deste mundo, mas nos dá uma imensa paz, proporcionando tranqüilidade diante dos desafios e nos tornando zelosos em nossa tarefa. Tal confiança é uma graça de Deus e uma conquista da vida de fé. Seguindo a Jesus somos capazes de nos lançar em tarefas ousadas, de nos colocar ao lado dos empobrecidos, de nos arriscar em projetos missionários, de enfrentar novos campos de evangelização e de empreender tarefas originais. Ao cultivar a confiança e a disponibilidade, nós nos tornamos pessoas vibrantes com nossa vocação.

A sintonia com o Pai, no coração e na vida. Jesus desenvolve a dupla atitude de confiança e disponibilidade por meio de uma sintonia constante com o Pai. Isto significa entrar na mesma freqüência, fundir horizontes distintos, pela oração e pela vivência dos sacramentos. Em meio à intensa atividade libertadora de ensinar, curar e proclamar a vinda do Reino (Lc 4,31.40.43), Jesus se retira para lugares desertos. Ele compreendia a necessidade de se alimentar com a oração, tanto pessoal (Lc 5,15ss), quanto junto com seus discípulos (Lc 9,18). Todas as suas decisões importantes são precedidas de momentos fortes de oração. Para seguir Jesus é necessário criar espaço de silêncio, de interioridade, de oração pessoal e coletiva, de intimidade com Deus e de escuta de sua Palavra. Este é um longo processo, fruto da graça divina e do esforço, generosidade e disciplina humanas, que precisamos cultivar.
O olhar da misericórdia de Deus e do Reino. Jesus ensina seus seguidores a contemplar as pessoas, a sociedade e o mundo com o olhar do Pai e do Reino. Apresenta um Deus tão bom, que a maior alegria é resgatar o perdido (Lc 15). Jesus é tomado de compaixão pela multidão abandonada (Mc 6,34). Este amor está na base de toda ação benéfica e libertadora de Jesus e já sinaliza que o Reino se faz presente em nosso meio. O misericordioso, a partir do olhar de Deus, acolhe a fragilidade humana para ajudar a pessoa e age decifrando os sinais do Reino, presentes na realidade. Este olhar está na origem da nossa missão evangelizadora. Ele nos impulsiona a caminhar rumo ao Reino, com esperança e compromisso. Somos, assim, eternos inconformados, provocados a acreditar no Reino e a nos engajar, cada vez mais, nas lutas pela cidadania, pela ecologia, pela moradia, pela educação, fazendo que a Terra se torne espaço de festa e de partilha.

A dor e a esperança do Reino: a Cruz e a Ressurreição: O seguimento de Jesus não pode ser assumido sem a consciência de que também comporta a Cruz. A comunidade cristã percebeu isto desde o começo. Esta é uma dimensão permanente da nossa caminhada. A cruz representa algo de perda, de renúncia, de desprazer, de incômodo. A redenção não está no sofrimento. Nossa salvação se encontra no fato de que o Filho de Deus se encarnou e venceu o mistério da injustiça no mundo. Só um grande amor é capaz de se oferecer, de se doar até o fim (Jo 15,13). O seguidor refaz as grandes etapas do caminho de Jesus: a encarnação, a cruz, a ressurreição e a efusão do Espírito. A cruz, hoje, apresenta-se de diversas formas: na perseverança do compromisso com o bem e com a justiça, no posicionar-se ao lado dos pobres e dos fracos; na aceitação de situações indesejadas, transformando nossa impotência ou dificuldades em resposta a Deus; na identificação com os crucificados neste mundo, aproximando-se e comprometendo-se com os que sofrem e são submetidos a condições desumanizantes. A cruz não tem a última palavra na vida de Jesus, nem na nossa. Portanto, a ressurreição traz frutos de paz, de coragem, de alegria, de força no Espírito e de envio à missão.

O espírito de filhos e filhas. O Espírito nos recorda, atualiza e amplia a palavra e a ação de Jesus (Jo 14, 16,26). Ele nos conduz à verdade plena (Jo 16,13), na diversidade dos dons e ministérios, como um corpo vivo com diferentes membros (1Cor 12). É Ele que conduz cada comunidade no caminho do Ressuscitado e que impulsiona cada cristão a realizar sua vocação de filho de Deus. Com o Espírito chegou o tempo da maturidade humana, onde cada homem e cada mulher é dotado da capacidade de viver a liberdade, no amor e na caridade (Gl 3,24-28; 5,1-13). O Espírito nos atrai de novo a Deus, colocando-nos no processo de re-encantamento por Deus e pelo Reino. Sua força renovadora e impulsionadora nos convoca a uma liberdade criativa, fundada na caridade. Nosso tempo necessita muito que deixemos o Espírito agir, revestindo de novo os ossos de carne, dando vida e esperança (Ez 37,1-14).

Estes são alguns traços de uma mística do seguimento de Jesus, hoje. Todos brotam de uma relação viva com o Senhor, pela força do Espírito, neste momento histórico em que vivemos. Servem, por assim dizer, humildemente ao projeto de Deus, na construção do seu Reino.

Ao percorrer este trajeto, pode-se perceber que, viver uma espiritualidade no contexto da Diocese de Caçador, é bastante exigente. Uma realidade muito empobrecida, com pessoas e grupos que se esforçam para continuar sobrevivendo. É um tempo em que se precisa de muita conversão e amor. Conversão a Deus e aos irmãos, abandonando projetos e interesses egoístas, sendo solidário com os que mais precisam. Precisa-se de muito amor, pois, sem este grande mandamento, torna-se impossível ser sinal da presença de Deus. Tudo isto ocorre com muitos conflitos e desafios. Porém, não podemos deixar desaparecer o sonho, a utopia, que dá o dinamismo necessário para a vida. O agente de pastoral, na Diocese de Caçador, há de ser aquele que vive na radicalidade do Evangelho, buscando a mística do seguimento de Jesus, para que haja um mundo mais justo, humano, solidário e fraterno. Não poderá esperar que os outros o vivam. Deverá, a partir do seu jeito de ser, testemunhar sua fé e suas convicções.

Alguns critérios para a ação pastoral

A chegada da pós-modernidade e a emergência da subjetividade, provocam uma certa crise, mas ao mesmo tempo, deve provocar uma nova sensibilidade em cada um de nós. Diante deste fenômeno, é necessário olhar com misericórdia para as carências humanas e com discernimento para os sinais dos tempos, buscando critérios para nossa ação:

Deus reina a partir da tenda, na qual habita e peregrina no meio do povo: Ter a capacidade de lembrar sempre que o Reino está no meio de nós e que o Verbo se encarnou entre nós, assumindo a nossa humanidade.

A misericórdia e a justiça são “sinal e presença” do Reino de Deus: Acolher as pessoas, sem julgamento de sua condição, nos leva a oferecer novas respostas evangélicas criativas, com novas estratégias, meios e prazos.

O pobre, o órfão, a viúva, o peregrino, a estéril são os prediletos de Deus: Estes são os interlocutores primeiros na evangelização. O diálogo, contato com os excluídos, nos educa evangelicamente, a partir de uma fé que consiga responder à miséria, com ética e iniciativas.

O Reino de Deus cria fraternidade e educa a humanidade à convivência: A comunhão, é horizonte último do Reino, traço da Trindade e de todas as Alianças. Nossa convivência deve restabelecer a comunhão conosco mesmos, com os outros, com a natureza e com Deus.

A beleza da criação, já festeja antecipadamente o futuro do mundo, como jardim onde Deus e a humanidade caminham juntos. Devemos testemunhar alegremente a nossa fé e a nossa esperança, alimentadas pela memória da Páscoa do Senhor, antecipação do Reino.