Diocese de Caçador

Desafios

Enfrentar os desafios da nossa realidade

Apresentamos a seguir algumas temáticas que procuram agrupar e contemplar os maiores desafios. Clique em cada subtítulo abaixo para conferir.

A transmissão da fé

A transmissão da fé é um dos grandes desafios da atualidade. A identidade cristã de muitos de nossos católicos é fraca e vulnerável. Há uma multidão de batizados e não evangelizados. Isso é fruto de uma catequese cristã pobre e fragmentada na maioria de nossas comunidades. Mesmo contando com a boa vontade e o testemunho de tantos catequistas e outros agentes, o processo catequético não tem conseguido ajudar as pessoas a fazerem um verdadeiro encontro com Jesus Cristo e inseri-las na vivência cristã da comunidade. Muitas vezes a catequese com crianças e jovens segue um modelo escolar, com acento quase exclusivo na dimensão doutrinal e moral, e com enfoque na preparação para os sacramentos. Os momentos de catequese com adultos são, em sua maioria, cursos rápidos de sínteses doutrinais e distantes da vida da comunidade. Há muita dificuldade de se unir a catequese e a liturgia. O resultado disso é uma catequese de doutrinação e a liturgia reduzida ao devocionismo. Essa catequese de preparação para os sacramentos, própria da cristandade, pressupunha um forte apoio familiar à vivência da fé. Em tempos de mudança de época, com o enfraquecimento dos vínculos familiares e comunitários, esse modelo de catequese é insustentável, já não responde às necessidades atuais.

A Igreja precisa recuperar o processo de iniciação à vida cristã, com forte apelo ao anúncio de Jesus Cristo, ao seu seguimento e à inserção na comunidade cristã. O estado permanente de missão implica numa efetiva iniciação à vida cristã. A mudança de época exige que o anúncio de Jesus Cristo não seja mais pressuposto, mas explicitado continuamente (DGAE 41). Começamos a ser cristãos a partir do encontro com um acontecimento, com a pessoa de Jesus Cristo, que dá um novo rumo à vida. Por isso, é preciso ajudar as pessoas a conhecer Jesus Cristo, fascinar-se por Ele e optar por segui-lo (DGAE 42).

A Conferência de Aparecida afirmou que a iniciação à vida cristã é uma urgência e que não se esgota na preparação aos sacramentos, mas se refere à adesão a Jesus Cristo, à formação da identidade cristã do discípulo missionário (DAp 287). Propõe que o processo catequético tenha “inspiração catecumenal”, com seus tempos e etapas: pré-catecumenato/anúncio, catecumenato, purificação/iluminação e mistagogia.

Nesta perspectiva, a catequese coloca-se a serviço da iniciação à vida cristã. Ela requer novas atitudes pessoais, tais como a acolhida, diálogo, partilha, escuta da Palavra de Deus e vida comunitária, bem como novas estruturas, métodos e atitudes pastorais. A comunidade há que exercer o seu papel de casa de iniciação à vida cristã. “Uma comunidade que assume a iniciação à vida cristã renova sua vida comunitária e desperta seu caráter missionário. Isso requer novas atitudes pastorais por parte dos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e agentes de pastoral” (DAp 291). É urgente considerar o processo de iniciação à vida cristã como formação básica para o “tornar-se cristão”. É a maneira ordinária e indispensável de introdução na vida cristã, como a catequese básica e fundamental. Depois acontece a catequese permanente que continua o processo de amadurecimento da fé e favorece inserção missionária do discípulo na vida pastoral da comunidade (DAp 294).

Na Diocese de Caçador muitos passos já foram dados na mudança do paradigma catequético. Os principais esforços aconteceram no âmbito da formação para comunidades e agentes. Espaço privilegiado para isso tem sido a Escola Catequética Diocesana. Também as paróquias e microrregiões têm estudado o tema. No entanto, é preciso avançar na formação e preparação das comunidades, envolvendo também os demais sujeitos do processo de iniciação, de modo que toda a comunidade assuma sua missão de ser “Casa de Iniciação à Vida Cristã”. Concomitante ao processo formativo, a metodologia da inspiração catecumenal foi assumida, inicialmente nas paróquias Imaculada Conceição de Fraiburgo e São José, de Timbó Grande. Nos anos de 2018 e 2019 todas as paróquias deverão assumir este projeto catequético. A Diocese elaborará os materiais para a iniciação cristã das crianças e adolescentes. Precisamos assumir um novo processo de iniciação cristã também com adultos que contemple acolhida, acompanhamento, itinerários diversificados e vinculação comunitária. Destacamos que a preparação dos pais e padrinhos para o batismo e dos noivos para o casamento não podem ser apenas “cursos rápidos”, de cunho doutrinal, mas verdadeiros processos de anúncio e acompanhamento.

Comunidade eclesial e ministérios

Nossa Igreja diocesana conta com uma riqueza e diversidade de ministérios e serviços para o anúncio da Boa Nova do Reino. No cotidiano da vida comunitária, no entanto, emergem situações e aspectos que contradizem/diminuem esse grande potencial evangelizador. Perduram ainda a sacramentalização, o devocionismo e o clericalismo. A dimensão social, na defesa e proposição de políticas públicas em favor dos mais pobres e sofredores é tímida. Há resistência em passar de uma “pastoral de conservação”, para uma pastoral decididamente missionária e profética. Uma das causas dessa dificuldade é a insuficiência de formação religiosa, tanto do clero como dos leigos. Ligada à falta de formação está a falta de uma espiritualidade mais profunda, tão necessária, sobretudo aos que exercem responsabilidades ou ministérios de coordenação na Igreja. Constata-se inclusive a existência de pessoas que ao invés de servir à Igreja, servem-se dela, exploram a Igreja Povo de Deus para satisfazer interesses pessoais. Nem sempre há transparência e uma devida prestação de contas dos recursos financeiros arrecadados pela Igreja. O dízimo ainda é pouco assumido, sendo que ele deveria ser a principal fonte de manutenção e animação da Igreja. A falta de unidade e de planejamento pastoral é outro problema que afeta nossa Igreja. A falta de uma pastoral orgânica, de conjunto, planejada participativamente, faz com que proliferem projetos pessoais, vivências religiosas desconectadas da Igreja. As iniciativas de pastorais e movimentos deveriam ser sempre avaliados e aprovados em assembleias paroquiais e diocesanas. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja (nacional e regional) e o próprio Plano Diocesano de Pastoral são pouco estudados e assumidos.

A Igreja sempre contou com uma pluralidade de ministérios. Junto com a vocação específica dos ministros ordenados (bispos, padres e diáconos) e das pessoas consagradas (mulheres e homens pertencentes a ordens, congregações ou institutos religiosos), a Igreja é o lugar da diversidade dos ministérios leigos. O Vaticano II definiu uma nova relação entre a hierarquia e os leigos. Com a “volta às fontes” bíblicas e patrísticas, resgatou o modelo de Igreja das comunidades cristãs primitivas. No seio delas, a exemplo do que Jesus queria, existia um único gênero de cristãos – os batizados. É de uma comunidade toda ela profética, sacerdotal e régia, que brotam todos os ministérios para o serviço da comunidade, inserida na sociedade, inclusive os ministérios ordenados. Para o Vaticano II, como todo batizado, o leigo é sujeito de ministérios na Igreja e no mundo. Consequentemente, não é correto dizer que a missão do leigo é no mundo, e a do clero, na Igreja. É missão do leigo também ser sujeito dentro da Igreja, com voz e vez em tudo, na corresponsabilidade de todos os batizados. Por sua vez, o lugar do padre e do bispo é também no mundo, pois todos os cristãos recebem a missão de ser fermento na massa e luz do mundo.

O papa Francisco afirmou que “A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. Ao seu serviço, está uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja. A tomada de consciência desta responsabilidade laical que nasce do Batismo e da Confirmação não se manifesta de igual modo em toda a parte; em alguns casos, porque não se formaram para assumir responsabilidades importantes, em outros por não encontrarem espaço nas suas Igrejas particulares para poderem exprimir-se e agir por causa de um excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões.” (EG 102). Durante a Jornada Mundial da Juventude, Rio 2013, o Papa Francisco afirmou que “é preciso ter a coragem de levar a fundo uma revisão das estruturas de formação e preparação do clero e do laicato da Igreja que está no Brasil. Não é suficiente uma vaga prioridade da formação, nem documentos ou encontros. Faz falta a sabedoria prática de levantar estruturas duradouras de formação.”

A CNBB afirma que: “Para que as comunidades (e paróquias) possam ser bem servidas e crescer na fé, é necessário estimular a participação de leigos nos diferentes ministérios e serviços” (Doc. 100, 307). “Esses ministros partilham do serviço do próprio Cristo. São missionários: fundam novas comunidades eclesiais, levam o Evangelho aos ambientes profissionais, garantem presença nos novos areópagos (política, comunicação, universidades, saúde etc.). Destaca ainda que, para cumprirem sua missão, os leigos “precisam de sólida formação doutrinal, pastoral e espiritual. Os melhores esforços das paróquias precisam estar voltados à convocação e à formação dos leigos das comunidades, especialmente seus ministros” (Doc. 100, 308).

Sobre os leigos e leigas, a CNBB indica alguns caminhos para a valorização dos cristãos leigos e leigas: despertar para a consciência quanto à sua identidade, vocação, espiritualidade e missão; convocar para participar ativamente dos processos de planejamento, decisão e execução da vida eclesial e da ação pastoral por meio das assembleias paroquiais e dos conselhos pastorais; reconhecer a dignidade da mulher e a sua indispensável contribuição na igreja e na sociedade; incentivar e acompanhar a presença dos leigos na participação social e política; fortalecer a consciência de pertença à comunidade eclesial e de corresponsabilidade nas atividades pastorais. (Doc. 105, 274).

A renovação pastoral da Igreja envolve os ministros ordenados. Jesus se apresenta como o bom pastor que acolhe o povo, sobretudo os pobres, seu agir revela um novo jeito de cuidar das pessoas. Esse é o desafio colocado para todo ministro ordenado. A exigência fundamental é que sejam “autênticos discípulos de Jesus Cristo” (DAp 201). Na missão que receberam, devem colocar-se próximos das pessoas, agindo com paciência e misericórdia, sendo simples e acolhedores, disponíveis para o serviço à comunidade, com espírito missionário, coração paterno, capazes de promover a participação de todos, buscando a unidade. São um dom para as comunidades que servem, não meros delegados ou representantes, devendo exercer sua paternidade espiritual igualmente em favor de todos (Doc.100, 195-206).

São sinais de preocupação a situação de muitos ministros ordenados com excesso de atividades pastorais, desencantados e cansados, apáticos aos sofrimentos dos outros, insensíveis aos pobres, rudes no tratamento do povo e incapazes de manifestar misericórdia, personalistas, dominados pelo mundanismo espiritual e isolados em relação à Diocese. Outra preocupação é a ausência de formação permanente. Diante das aceleradas mudanças que ocorrem, podem ficar atrasados no tempo e afastados da realidade. Na carta ao cardeal Marc Oullet, o papa Francisco critica o clericalismo: “Longe de dar impulso aos diversos contributos e propostas, apaga pouco a pouco o fogo profético do qual a inteira Igreja está chamada a dar testemunho no coração dos seus povos. O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus (LG 9-14) e não só a poucos eleitos e iluminados”.

O testemunho de Santo Oscar Romero, Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga e inúmeros sacerdotes que atuaram em nossas comunidades com zelo, acolhimento e vivência do ministério numa perspectiva popular, são um incentivo para a renovação da vida e da missão sacerdotal. Dom Helder[1] tinha consciência de que sacerdócio e egoísmo não combinam. “Ser padre” exige da pessoa o “colocar-se a serviço”. Significa não buscar honras, aplausos, fama, vaidades pessoais de nenhum tipo. Esse modo de pensar e de ser, Helder herdou de sua família, especialmente do pai. Quando tinha entre 7 e 9 anos, o pai lhe disse algo inesquecível, que sempre procurou viver: “Filho, você está crescendo e continua a dizer que quer ser padre, mas você sabe de verdade o que significa ser padre?”. O menino ficou quieto, meio acabrunhado com o questionamento do pai, que prosseguiu: “Você sabia que, para uma pessoa ser padre, ela não pode ser egoísta, não pode pensar só em si mesma? Ser padre e ser egoísta é impossível, eu sei, são duas coisas que não combinam. Os padres acreditam que, quando celebram a eucaristia, é o próprio Cristo que está presente. Você já pensou nas qualidades que devem ter as mãos que tocam diretamente no Cristo?”. Helder, convicto, disse: “Pai, é um padre como o senhor está dizendo que eu quero ser”. “Então, filho, que Deus o abençoe!” disse o pai.

Para realizar com fecundidade sua missão, as comunidades eclesiais, além da valorização de seus agentes pastorais e da riqueza ministerial, precisam organizar os meios que sustentam a sua missão. Trata-se de trabalhar de forma evangélica a sua própria sustentabilidade tendo presente que é uma responsabilidade de todos os membros da comunidade. Daí brotam inúmeras iniciativas pastorais, das quais destacamos o dízimo que é “uma contribuição sistemática e periódica dos fiéis, por meio da qual cada comunidade assume conjuntamente a própria sustentação e a da Igreja.” (Doc. 106, 23). A decisão de ser dizimista nasce de um coração agradecido por ter encontrado o Deus da vida e experimentado a beleza de sua presença amorosa no dia a dia. Sua fundamentação primeira é a compreensão de que Deus é o Senhor de tudo, o proprietário da terra de onde provém o alimento e a fonte de toda bênção (Lv 25,23; Sl 24,1). A partilha dos bens, praticada pelos discípulos de Jesus oferece um referencial muito importante para a sua compreensão. Os evangelhos narram a experiência de pessoas que tiveram a graça de encontrar Jesus e decidiram entregar parte de seus bens para o Senhor (Lc 8,1-3). Entre os discípulos de Jesus havia uma “bolsa comum” (Jo 13,29). Nas primeiras comunidades, o que cada um possuía era posto a serviço dos outros; desse modo, os bens pessoais se tornavam comunitários por livre decisão; a partilha não era imposta pelos apóstolos, mas expressão natural do amor a Cristo e aos irmãos: “Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um” (At 2,44s). A coleta que foi feita para ajudar os que, na Judeia, sofriam durante a “grande fome”, é o modelo de uma prática que se tornou recorrente entre as comunidades cristãs (At 11,29; Rm 15,26-27; 1Cor 16,1-4; 2Cor 8-9; Gl 2,10).

A correta compreensão do dízimo evita que ele seja proposto e assumido apenas como forma de captação dos recursos necessários para as pastorais, para a sustentação de pessoas e para a manutenção das estruturas paroquiais e diocesanas. O dízimo comporta as seguintes dimensões: Dimensão religiosa: insere o dízimo no âmbito da espiritualidade cristã. Contribuindo com parte de seus bens, o fiel cultiva e aprofunda a sua relação com Aquele de quem provém tudo o que ele é e tudo o que ele tem, expressando, na gratidão, sua fé e sua conversão. À luz da fé, a relação com os bens materiais e com seu correto uso ganha novo significado (Lc 12,15-21; 1Tm 6,17-19); Dimensão eclesial: o dizimista cresce na consciência de ser membro da Igreja e de ser corresponsável para com a comunidade, a fim de que disponha do necessário para a realização do culto divino e para o desenvolvimento de sua missão. Esta consciência leva os fiéis a assumir a vida comunitária, participando ativamente de suas atividades e colaborando para que a comunidade viva cada vez mais plenamente a fé e a testemunhe; Dimensão missionária: o cristão, corresponsável por sua comunidade, toma consciência de que há muitas comunidades que não conseguem prover suas necessidades com os próprios recursos e que precisam da colaboração de outras. O dízimo permite a partilha de recursos entre comunidades de uma paróquias, entre as paróquias de uma diocese e entre as dioceses, manifestando a comunhão que há entre elas. O dízimo contribui para o aprofundamento da partilha e da comunhão de recursos em projetos como o das paróquias-irmãs e o do fundo eclesial de comunhão e partilha; Dimensão caritativa: manifesta-se no cuidado com os pobres, por parte da comunidade. É preciso recordar que “a opção preferencial pelos pobres está implicada na fé cristológica” (DI 03) e que a caridade para com os pobres “é uma dimensão constitutiva da missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua própria essência” (EG 48). Quando a comunidade contribui sistematicamente para os projetos de promoção humana ou de socorro a necessidades emergenciais, colabora também para a humanizar e aprimorar as estruturas sociais.

A Igreja no Brasil afirma que o dízimo contribui para concretizar a comunhão eclesial e a organicidade de sua ação evangelizadora. A consolidação do dízimo como meio ordinário de manutenção eclesial reforça o sentido de pertença a uma diocese e aprofunda a compreensão da pastoral de conjunto. O dízimo não é apenas mais uma forma de captação de recursos, mas a forma habitual de colaboração. É necessário fazer uma reflexão sobre taxas, festas, campanhas, promoções e coletas especiais. As festas não precisam ser abolidas, mas devem estar inseridas no conjunto da ação evangelizadora e claramente relacionadas com a dimensão de convivência fraterna e de comemoração. Campanhas com finalidades específicas precisam ser motivadas de modo a não afetar a consciência da contribuição com o dízimo e a não pesar sobre as famílias mais pobres. A organização e a funcionalidade do dízimo necessita de grupos ou equipes pastorais que assumam a responsabilidade da coordenação dos vários aspectos de seu funcionamento e de sua relação com a pastoral de conjunto. É preciso haver pessoas suficientes e preparadas para que os vários aspectos do dízimo sejam devidamente motivados e funcionem adequadamente (Doc. 106).

Família

Um olhar especial merece a família, patrimônio da humanidade, lugar e escola de comunhão, primeiro espaço para a Iniciação à vida cristã (DGAE 111). “A família é importante, é necessária para a sobrevivência da humanidade. Se não existe a família, a sobrevivência cultural da humanidade corre perigo”.[1] “A verdadeira alegria que se experimenta na família não é algo superficial, não vem das coisas, das circunstâncias favoráveis… […] Na base deste sentimento de alegria profunda está a presença de Deus, a presença de Deus na família, está o seu amor acolhedor, misericordioso, cheio de respeito por todos. […] Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, se apaga a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade.”[2]

“A família está ameaçada pelos crescentes esforços de alguns em redefinir a própria instituição do matrimônio mediante o relativismo, a cultura do efêmero, a falta de abertura à vida.”[3] A família enfrenta muitas situações de sofrimento: desemprego, violências, falta de moradia digna, de acesso à saúde, desestruturação, separações, individualismo, enfraquecimento da fé e da prática religiosa, idosos abandonados, filhos sem pai, sem mãe ou num contexto alargado ou reconstituído, exploração sexual da infância, falta de responsabilidade e cuidado com a sexualidade, prostituição, aborto, o liberalismo, a mercantilização e a idolatria do prazer e outros.

Com relação à visão cristã do matrimônio e da família, o Papa Francisco exige “uma saudável reação de autocrítica”. “Devemos ser humildes e realistas, para reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje lamentamos. Apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário” (Al, 36). “Temos dificuldade em apresentar o matrimônio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira” (AL 37).

O Papa Francisco, no que diz respeito aos divorciados recasados pelo rito civil, sustenta: “acolho as considerações de muitos Padres sinodais que quiseram afirmar que (…) a lógica da integração é a chave do seu acompanhamento pastoral (…) Eles não só não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e amadurecer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que sempre os acolhe” (AL 299). Diante da variedade inumerável de situações concretas, o papa indica como caminho a seguir não uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos, mas “um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares” (AL 300-312). “Trata-se de um itinerário de acompanhamento e discernimento que orienta estes fiéis na tomada de consciência da sua situação diante de Deus”. O Papa Francisco recorda também que “este discernimento não poderá jamais prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade propostas pela Igreja” (AL 300).

O Papa Francisco menciona duas posições errôneas. Uma é aquela do rigorismo: “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas” (AL 305). Por outro lado, a Igreja não deve absolutamente “renunciar a propor o ideal pleno do matrimônio, o projeto de Deus em toda a sua grandeza” (AL 307).

Sobre o acesso aos sacramentos das pessoas que vivem em situações “irregulares”. “O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites” (AL 305). O Papa Francisco pede: “Trata-se de integrar a todos” (AL 297), porque se trata de uma compreensão fundamental do Evangelho: todos necessitam de misericórdia! “Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra” (Jo 8,7). Todos nós, independentemente do matrimônio e da situação familiar na qual nos encontramos, estamos a caminho. Mas para este propósito ele não oferece receitas, mas recorda “aos sacerdotes que o confessionário não deve ser uma sala de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor” (EG 44) e que a Eucaristia “não é um prêmio para os perfeitos, mas um generoso remédio e um alimento para os fracos” (EG 44). O papa manifesta ainda sua grande preocupação com a preparação dos noivos e o acompanhamento dos casais nos seus primeiros anos de vida matrimonial, além de exortar para o compromisso da educação dos filhos que da família se pede.

[1] Papa Francisco. Entrevista na Rádio Catedral, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013.
[2] Papa Francisco. Homilia na Jornada da Família por ocasião do Ano da Fé, Vaticano, 27 de outubro de 2013.
[3] Papa Francisco. Encontro das Famílias, Manila, Filipinas, 15 de janeiro de 2015.

Juventude

O Papa Francisco tem demonstrado uma preocupação especial com os jovens, sobretudo com os jovens desempregados que, em alguns países, passam de 50%. Os maiores problemas da juventude tais como a exclusão, a discriminação, a migração, o deslocamento do campo para a cidade, a litoralização, a prostituição, drogadição, a violência, entre outros, são de ordem estrutural da sociedade. O papa tem apoiado os movimentos e grupos juvenis que procuram não apenas refletir e atender demandas juvenis mas, também, transformar a sociedade.

No Brasil, centenas de milhares dos jovens foram às ruas e se manifestaram fortemente contra a corrupção ou ocuparam escolas, institutos federais e universidades para impedir que a aprovação de projetos de lei que prejudicam e destroem diretos humanos/sociais e políticas públicas. Os jovens estão exigindo mudanças profundas na sociedade brasileira, pois eles são os primeiros a sofrerem as consequências de um modelo de sociedade que privilegia apenas 5% dos seus membros, os mais ricos. A idolatria do mercado torna a sociedade violenta e excludente, faz dos jovens instrumentos idealizados pelas mídias como modelos de beleza, de saúde ou como violentos para depois transformá-los em meros consumidores, gerando desilusão, decepção, acomodação e alienação. Diante disso, o papa Francisco na JMJ Rio 2013, convocou os jovens: “Sejam revolucionários, eu peço que vocês vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem: que se rebelem contra esta cultura do provisório que, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, crê que vocês não são capazes de amar de verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de “ir contra a corrente”. E tenham também a coragem de ser felizes!”

Cresce a pluralidade e diversidade de grupos juvenis. Eles se reúnem porque se identificam, porque tem gostos, costumes ou ideais semelhantes. Eles se organizam em pequenos grupos, distintos pelas suas relações sociais, econômicas, midiáticas e culturais. Eles criam seus ambientes de encontro, inclusive pelas redes sociais, e formam novas maneiras de se relacionar. Os jovens demonstram grande força, motivação e entusiasmo pela vida. Numa era de mudanças, de fragmentação, de falta de democracia e de violência, nós nos deparamos, nesse contexto, com inúmeros grupos juvenis e suas atividades coletivas que se fortalecem. As formas associativas de jovens se expandem em todos os lugares do planeta, mas é no mundo urbano que há maior organização. Os grupos se formam motivados por projetos ou por bandeiras comuns. Pesquisas recentes afirmam que 28,1% dos jovens participam de grupos e, destes, os grupos religiosos são os mais atraentes para os jovens, com 81,1%; depois aparecem as associações esportivas, ecológicas, culturais, artísticas e assistenciais com 23,6%; em seguida temos 18,7% dos jovens que se reúnem em grupos por interesses corporativos, trabalhistas ou estudantis; e, apenas 3,3% em organizações partidárias (CNBB, CF 2013, pp. 27-33).

O senso IBGE 2010 concluiu que apenas 2% dos jovens se dizem ateus e 14,3% se declaram sem religião, os demais afirmam que o temor a Deus está entre os seus quatro valores mais importantes. Atualmente, grande número de jovens tende a propostas religiosas mais radicais na relação com o sobrenatural, de forma que o jovem, “é concebido como alguém mais propenso a atitudes heroicas e a virtuosismos religiosos, que busca a santidade e também a revolução, e que morreria por uma causa”. Também, constatamos, com grande alegria, a presença de uma multidão de jovens convivendo e participando da vida de nossas comunidades: “Em nossa Igreja há uma presença significativa de jovens em vários setores da vida eclesial: nas comunidades eclesiais de base e nas paróquias, participando das equipes de liturgia e de canto, atuando como catequistas e em diversas pastorais”. Percebe-se que muitos jovens não medem esforços nem economizam tempo e simpatia para servir os irmãos, principalmente nos finais de semana, e outros estão sedentos de oportunidades que os valorizem em seu modo de ser e de fazer acontecer uma Igreja mais libertadora, missionária e jovem e uma sociedade melhor. Assim se dirigiu o papa Francisco aos jovens da JMJ Rio 2013: “A partir do testemunho de alegria e de serviço de vocês, façam florescer a civilização do amor. Mostrem com a vida que vale a pena gastar-se por grandes ideais, valorizar a dignidade de cada ser humano, e apostar em Cristo e no seu Evangelho.”

Casa Comum

A sociedade, impulsionada pela lógica do consumo, da acumulação e da exploração desenfreada dos recursos naturais, está destruindo a casa comum. Da mesma forma como percebemos em nossa realidade, o papa Francisco chama a atenção à questão da poluição e às mudanças climáticas destacando a poluição do ar causados pelo transporte, pelas fumaças da indústria; a poluição do solo e da água pelos fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral; os resíduos domésticos e comerciais; os detritos de demolições; os resíduos clínicos, eletrônicos e industriais, altamente tóxicos e radioativos. “A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (LS 20. 21). Além disso, adverte para o problema do aquecimento global causado principalmente pela alta concentração de gases de efeito estufa emitidos sobretudo pela atividade humana. Este processo afeta a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a agricultura e provocará a extinção de parte da biodiversidade do planeta.

As mudanças climáticas constituem atualmente um dos principais desafios para a humanidade. Seus impactos mais sérios recaem sobre os mais pobres que vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Como consequências das mudanças climáticas temos acompanhado o crescimento de situações de emergência por inundações, deslizamentos, secas, vendavais, granizos.

A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas. Em muitos lugares, os lençóis freáticos estão ameaçados pela poluição produzida por algumas atividades extrativas, agrícolas e industriais. Enquanto a qualidade da água disponível piora, cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-o uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Há uma grave dívida social para com os pobres, que não têm acesso à água potável, porque nega-lhes o direito à vida (LS 30).

Desafio semelhante se apresenta diante da realidade do saneamento básico. Mesmo sendo um direito assegurado pela Constituição que prevê o conjunto de serviços, infraestrutura e instalações operacionais como abastecimento de água, manutenção do sistema de esgotos, coleta, remoção e destinação final dos resíduos, drenagem de águas pluviais, controle de insetos e roedores, saneamento dos alimentos, a realidade que se coloca é contrastante e a maioria destes serviços não é oferecido de modo adequado causando sérios danos à população e ao meio ambiente. Não é possível enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social. “Tanto a experiência comum da vida quotidiana como a investigação científica demonstram que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres. Não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra quanto o clamor dos pobres” (LS 49).

O Papa Francisco nos convida para “sair da espiral de autodestruição onde estamos afundando” (LS 163). Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência fundamental permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar” (LS 13). Para isso é necessária uma compreensão da ecologia integral que implica novos estilos de vida, com profundas mudanças nos modelos de produção e consumo, a partir de uma vida mais sóbria e solidária, prezando pelo bem comum. Tanto no campo como na cidade, percebe-se o crescimento da consciência ecológica, sendo exemplos disso a formação de grupos de catadores e de agricultores que produzem em bases sustentáveis, solidárias e agroecológicas preservando a natureza e a saúde do produtor e do consumidor.

Para ocorrer a mudança há necessidade de um caminho educativo que aponte para outro estilo de vida e que promova uma aliança entre a humanidade e o ambiente e de uma espiritualidade ecológica que aponta para a conversão ecológica fazendo emergir nas relações com o mundo, as consequências do encontro com Jesus, a sobriedade para limitar as necessidades e saber viver com pouco (LS 202-242).

Agricultura

A região na qual está a Diocese de Caçador conta com uma economia dinâmica e diversificada, afinada com as exigências do mercado, em parte voltada para a exportação. Têm destaque nacional setores da alimentação (carnes, lacticínios, maçã, uva, tomate, feijão, milho, etc), de plásticos, madeira, papel e celulose, cultivo do fumo, etc. Este é um modelo econômico que gera progresso, mas não para todos, além de agredir a natureza. O agro e o hidronegócio são excludentes e predatórios. Em nossa Diocese, a maioria dos agricultores estão integrados às agroindústrias produtoras de carnes (aves e suínos), leite, fumo e a outras cadeias produtivas, tornando as pessoas reféns (empregados) em sua propriedade, privando-as da vida comunitária e de outras atividades e organizações sociais. Além disso, muitas vezes trabalham todos os dias da semana, sem folga, sem contribuição previdenciária, sem direito a férias, a décimo terceiro salário; são mão de obra barata e explorada pela agroindústria. Outras consequências desses problemas são a redução dos trabalhadores na agricultura familiar e camponesa, o êxodo rural, a falta de produção de alimentos para o consumo interno, e o uso de agrotóxicos, que compromete a saúde de trabalhadores e consumidores. A manipulação genética e a propriedade das sementes por parte de empresas transnacionais são uma ingerência indevida em nossa rica biodiversidade e uma apropriação ilegítima da sabedoria milenar de nosso povo.

A Igreja defende que a terra é dom e dádiva para a humanidade inteira, lugar de viver e trabalhar e não mercadoria. O documento de Aparecida fala em contemplar os rostos daqueles que sofrem. Entre eles estão os pequenos agricultores e os agricultores sem-terra. E afirmou: “Os homens do campo, em sua maioria, sofrem por causa da pobreza, agravada por não terem acesso à terra própria. No entanto, existem grandes latifúndios em mãos de poucos” (DAp 72). O Papa Francisco, ao falar da solidariedade, reafirma com clareza a função social da propriedade: “A solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. Estas convicções práticas de solidariedade, quando se fazem carne, abrem caminho a outras transformações estruturais e tornam-nas possíveis” (EG 189).

A Igreja afirma: “A expansão do agronegócio nos moldes como vem acontecendo em nosso país coloca em risco a Função Social da terra e do seu uso e, consequentemente, a destinação universal dos bens da natureza, garantida na Constituição Federal. E orienta: “Urge apoiar as lutas dos pequenos que buscam oportunidades de vida na terra, na floresta e nas águas; a decisão dos trabalhadores e das trabalhadoras que utilizam formas legítimas de pressão; as políticas públicas que lhes garantam o acesso pleno aos serviços de saúde, educação e transporte; os esforços para conseguir a legalização de suas terras e o respeito pelo uso sustentável que delas fazem; as experiências agroecológicas que estão sendo implementadas em diversas regiões; as iniciativas para garantir alimentação abundante e sadia” (Doc. 101, 126.161).

Etnias e cultura popular

Em nossa diocese, a pluralidade de origens étnicas é uma realidade. Povos indígenas, africanos, europeus e asiáticos estão nas raízes éticas e culturais que povoaram, embelezaram, dinamizaram e edificaram nossas comunidades e municípios. De modo geral, há uma convivência respeitosa entre as diversas etnias, culturas e expressões religiosas. Cada etnia tem características próprias que se somam numa diversidade rica de símbolos, ritos, mitos, festas, orações, santos populares, romarias, procissões, artes, culinárias, edificações e conhecimentos. Jesus Cristo é uma referência de comunhão e unidade. Muitos grupos e comunidades se reúnem para conhecer e cultivar os valores que brotam do Evangelho e para promover talentos, saberes e sabores que caracterizam as diversas etnias e culturas de nossa região.

As tecnologias oferecem-nos uma nova e extraordinária possibilidade de encontro, intercâmbio cultural e de solidariedade humana. No atual processo de globalização há o perigo de se perderem as identidades em vista de uma homogeneização desrespeitosa, antidemocrática, excludente, desintegradora das comunidades, focada no mercado, consumista e individualista.

É parte importante de nossa missão de discípulos missionários de Cristo, estimular, valorizar e promover as legítimas diferenças culturais das diversas origens étnicas de nossa população, tendo em vista a busca de uma sociedade aberta ao diferente, fraterna, sem exclusões, que reconheça o valor dos povos indígenas, das minorias étnicas, dos descendentes de africanos e de outros povos, das mulheres, das crianças, dos adolescentes, dos jovens, dos idosos e de todas as pessoas. Não podemos aceitar qualquer forma de racismo, humilhação e discriminação.

Nos tempos passados, houve um colonialismo genocida e massacrador de povos, um confronto desigual, dolorido e violento entre etnias e culturas. Nossa missão é anunciarmos uma Boa Notícia, aquela que nos faz colaboradores no resgate e reconhecimento das raízes e identidades étnicas trazidas por aqueles que aqui vieram forçadamente e, também, pelos imigrantes que escolheram algum local de nossa diocese como sua comunidade. É hora de nos enriquecermos mutuamente no encontro, no diálogo e no intercâmbio entre as diferentes culturas e expressões étnicas presentes em nossa região. Nesse sentido são de grande valor as iniciativas voltadas para promover o turismo que valorizam as etnias, tradições, artes, culturas, conhecimentos e expressões religiosas de nossas comunidades e grupos.

Ao lembrar da situação dos imigrantes, durante o terceiro encontro mundial dos Movimentos Populares, o papa Francisco afirma que “uma cultura viva, autêntica, sólida, não tem nunca medo de abrir-se aos outros”. E, que hoje, quando no centro de um sistema econômico está o deus dinheiro e não a pessoa humana, vemos acontecer uma cultura do descarte que considera o ser humano como um bem de consumo, que se pode usar e depois jogar fora. Todavia, precisamos defender e praticar a cultura do encontro, da paz, do cuidado com a vida, da solidariedade, tão diversa da xenofobia e da intolerância que vemos com muita frequência. Entre os excluídos e os pobres vemos acontecer este encontro de culturas no qual o todo não anula a particularidade.

Ao observarmos a cultura cabocla na região do Contestado, pode-se afirmar que ela continua sofrendo as consequências de um imperialismo e de um neoliberalismo capitalista que saqueia, mente, exclui, explora, expulsa os filhos da terra, contamina as águas, destrói as florestas, envenena a terra, despreza as culturas locais, promove a guerra e a idolatria do mercado. Este mundo gera o jagunço, o bandido, o ladrão, o corrupto, o analfabeto, o vagabundo, o esquizofrênico, o doente, o violento. Este mundo foi e é combatido pelos caboclos e caboclas do Contestado. Sua cultura foi sendo edificada sobre os pilares de uma rica herança de resistência e de valores, que os capacitam na edificação de um mundo mais humano, saudável, justo, democrático, livre, includente; um mundo que valoriza a pluralidade cultural, que dialoga com o diferente e com o transcendente.

A identidade cabocla produz relatos como o de Aliriano Anacleto dos Santos, de Timbó Grande – SC, que, em meio a um longo diálogo sobre o Contestado, afirmou: Quando eu fui 30 dia na aula, o professor me disse, no final daquelas aula: comé que pode, o senhor só com 30 dia de aula sabe muita coisa que eu não sei sendo professor. Eu disse: bem, eu sei porque quem conheceu o mundo me explicou certo, que foi o São João Maria, que explicou para meus pais e padrinhos. Daí ele perguntou: mas o senhor teve arguma aula antes dessa? Eu disse: eu tive. Daí perguntou: aonde? Eu disse: foi entre o sol e a lua. Ele: mas como o senhor me diz isso, que eu não posso compreender? Eu disse: veja, quando a lua tá cheia, no anoitecer, se ela não tá pra cá e o sol está descendo. Onde é que nós tamo se não é entre o sol e a lua?!

Dom Carlos Sabóia de Melo, um dos primeiros bispos franciscanos a atuar na região do Contestado, ao relatar sua interpretação sobre a cultura cabocla afirmou: O caboclo não tem aspirações. Não se debate com planos de empreendimentos. Não liga ao dinheiro. Dinheiro só tem valor para adquirir o necessário e para “testar”. Nunca é objeto de anseios. A única classe de gente, cuja vida externa se pode comparar, em muitos sentidos, com a vida de nosso Seráfico Pai, é a do caboclo (…). Há qualquer coisa no caboclo que o sertanejo, que o colono, não possui, menos ainda o citadino, e nem se encontra nos operários, e que avizinha o caboclo do espírito franciscano.[1]

A identidade cabocla exprime uma grande complexidade de experiências e situações nascidas do encontro, do confronto e da mesclagem de, pelo menos, três mundos. Ela vai sendo tecida, filtrando e incorporando elementos das tradições de origem africana, indígena e europeia. Ela se apresenta como “síntese” de uma pluralidade de experiências, saberes, dores, cicatrizes e sabores vividos, e sempre de novo ressignificados, pelo cotidiano da vida do povo; seu dinamismo revela expressões de desespero dos derrotados e de sua esperança por justiça e por vida melhor; aparece como linguagem duradoura de um povo colonizado, subjugado, derrotado, resistente e sujeito da história; é o código pelo qual são compartilhadas ritualmente, e na vida cotidiana, experiências e histórias deixadas pelos antepassados.

O papa Francisco fala que “nos bairros populares subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Estas povoações são abençoadas por uma rica cultura popular, ali o espaço público não é apenas um lugar de trânsito mas uma extensão da própria casa, um lugar no qual gera vínculos com a vizinhança. Como são bonitas as cidades que superam a desconfiança doentia, integram os diferentes e fazem desta integração um novo fator de progresso! Como são bonitas as cidades que, também no seu projeto arquitetônico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro! Por isso, nem desenraizamento nem marginalização: é preciso promover uma integração autêntica e respeitadora.”

[1] SILVA, E. A. Identidades Franciscanas no Brasil. Rio de Janeiro: UFF, 2000.

Movimentos populares

A construção do projeto do Reino requer de nós a capacidade de atuar em parceria com entidades e organizações que também assumem a luta pela justiça e pelos direitos. O atual modelo de globalização faz emergir novos rostos pobres. A Igreja, com sua Pastoral Social, deve dar acolhida e acompanhar estas pessoas excluídas nas esferas a que correspondam. (DAp 416). Diante desta realidade o Documento de Aparecida orienta que as pastorais da Igreja em parceria com organizações sociais possam propor ações concretas que contribuam para a elaboração de políticas públicas de moradia, trabalho e emprego que levam em conta a necessidade da população. Muitas causas pelas quais a Igreja luta, são também causa que encontram eco nas lutas dos movimentos e organizações sociais.

Entre os anos de 2014 a 2016 o papa Francisco participou de três encontros mundiais com Movimentos Populares. Nos seus discursos ele lembrou que a grande bandeira desses movimentos é a solidariedade e que a forma mais profunda de solidariedade se dá na luta contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, terra e casa, bem como contra a negação dos direitos sociais e trabalhistas praticados pelo império do dinheiro que, também, impõe uma realidade violenta de migrações forçadas e dolorosas, de tráfico de pessoas e de drogas, de guerras e outros problemas sociais, que todos somos chamados a transformar.

O papa afirmou que “os movimentos populares são autônomos, têm uma dinâmica própria, mas devemos procurar caminhar juntos. Queremos que a vossa voz seja ouvida! O amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, casa e trabalho, aquilo pelo que lutais, são direitos sagrados. Exigi-lo não é estranho, é a doutrina social da Igreja.” Ele lembrou, também, que cada trabalhador, quer faça parte quer não do sistema formal do trabalho assalariado, tem direito à segurança, à remuneração e aposentadoria dignas. E, que os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes negadas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação das grandes maiorias como protagonistas e este protagonismo transcende os procedimentos lógicos da democracia formal.

A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu, disse o papa Francisco, quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, casa e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Vale a pena lutar por esses direitos sagrados. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra. Ele ainda conclama a todos, dizendo: “Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!”

Enfim, ele diz que se alegra muito com os muitos membros da Igreja que se colocam mais próximos dos movimentos populares. Ele quer ver a Igreja com as portas abertas aos movimentos populares, envolvida, acompanhando e oferecendo uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares.

Migrações

As migrações são um fenômeno complexo e que tem crescido nos últimos tempos. As principais causas das migrações são: a globalização, questões demográficas, a violação de direitos, o desemprego, as perseguições, a discriminação, o tráfico de seres humanos, a desigualdade econômica, a busca de trabalho, de melhores condições de vida e de segurança, as mudanças climáticas, as catástrofes naturais, a violência, a intolerância. “Migrante é toda a pessoa que se transfere de seu lugar habitual, de sua residência comum, ou de seu local de nascimento, para outro lugar, região ou país. Migrante é o termo frequentemente usado para definir as migrações em geral, tanto de entrada quanto de saída de um país, região ou lugar. Há termos específicos para a entrada de migrantes, denominada imigração e para a saída, emigração”

Muitas vezes estes[1] movimentos migratórios suscitam desconfiança e hostilidade por parte da população local. Outro desafio é o preconceito étnico e racial: No final do Séc. XIX e início do Séc. XX, a imigração no Brasil era branca, de origem europeia, Hoje são negros africanos e caribenhos, sobretudo haitianos, destinados a postos de trabalho de baixa remuneração, trabalhadores das industrias, supermercados, ajudantes gerais, faxineiros. A condição social e econômica dos imigrantes se caracteriza pela vulnerabilidade. Verifica-se, ainda, uma grande indiferença diante destas realidades. A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil (LS 25). A mobilidade ou migração nos municípios da diocese é de 38.367 pessoas que deixaram os municípios que residiam entre os anos de 2005 a 2010 e, neste mesmo tempo, outras 27.482 pessoas passaram a residir nestes municípios vindos de outros (da própria diocese ou de fora dela).

Conforme a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado/2015, as suspeitas e preconceitos contradizem o mandamento bíblico de acolher, com respeito e solidariedade, o estrangeiro necessitado. A solicitude de Jesus, especialmente pelos mais vulneráveis e marginalizados convida a todos a cuidar das pessoas mais frágeis e reconhecer o seu rosto de sofrimento, sobretudo nas vítimas das novas formas de pobreza e escravidão. O papa Francisco afirma que a Igreja anuncia no mundo a cultura do acolhimento e da solidariedade, segundo a qual ninguém deve ser considerado inútil, intruso ou descartável. A coragem da fé, da esperança e da caridade permite reduzir as distâncias que nos separam dos dramas humanos. Jesus Cristo está sempre à espera de ser reconhecido nos migrantes e refugiados, nos deslocados e exilados e, assim mesmo, chama-nos a partilhar os recursos e por vezes a renunciar a qualquer coisa do nosso bem-estar adquirido. Os movimentos migratórios solicitam que se aprofundem e reforcem os valores necessários para assegurar a convivência harmoniosa entre pessoas e culturas. Para isso, não é suficiente a mera tolerância, que abre caminho ao respeito das diversidades e inicia percursos de partilha entre pessoas de diferentes origens e culturas. É preciso favorecer a passagem de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse ou de marginalização (…) para uma atitude que tem por base a “cultura de encontro”, a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno. À globalização do fenômeno migratório é preciso responder com a globalização da caridade e da cooperação, a fim de se humanizar as condições dos migrantes. Ao mesmo tempo, é preciso intensificar os esforços para criar as condições aptas a garantirem uma progressiva diminuição das razões que impelem populações inteiras a deixar a sua terra natal devido a guerras e carestias, sucedendo muitas vezes que uma é causa da outra.

Diante do crescente número de migrantes que chegam à nossa região, é urgente a organização de estruturas “destinadas não apenas a acompanhar os migrantes e refugiados, como também a se empenharem junto aos organismos da sociedade civil, para que os governos tenham uma política migratória que leve em conta os direitos das pessoas em mobilidade” (DGAE 115). É urgente atuar na construção de políticas de gestão humanitária da migração, que viabilizem processos justos e acessíveis de documentação, acesso ao trabalho decente, à moradia, à saúde, ao aprendizado da língua, a programas culturais e pedagógicos, a Semana do Migrante e outras formas de intercâmbio cultural para a prevenção e enfrentamento ao preconceito e à discriminação. Da mesma forma, é fundamental organizar serviços de acolhida e atendimento dos migrantes, realizar parcerias com o poder público, os Centros de Direitos Humanos, as Universidades, a Rede um Grito pela Vida, a Cáritas e outros grupos.

[1] Fonte: http://www.migrante.org.br, acessado em 10/10/16.

A realidade carcerária

O sistema carcerário presente na diocese reflete a realidade nacional. Nos últimos vinte anos a quantidade de presos no Brasil cresceu mais de 500%, colocando o país com a terceira maior população carcerária do mundo – mais de 700 mil presos. O Estado gasta mais para reprimir do que para cuidar e educar seus cidadãos. A grande maioria dos presos é de jovens de até 29 anos, pobres, negros, moradores das periferias dos centros urbanos. O aumento da população carcerária vem acompanhado da intensificação das degradantes condições dos presídios, superlotados, insalubres. As mulheres presas são duplamente punidas, não tendo suas necessidades específicas respeitadas. É degradante a situação das mulheres presas grávidas. A luta e o sofrimento dos familiares da pessoa presa é parte integrante deste sistema. A criminalização, o preconceito e a marginalização sofridos pelos encarcerados se estendem às suas famílias. O cárcere, além de desumanizar a pessoa, desestabiliza e desestrutura famílias e comunidades. Segundo o assessor da Pastoral Carcerária Nacional, Pedro Lagatta, “tudo isso evidencia a realidade violenta das prisões brasileiras e as consequências do caráter seletivo do sistema penal e massivo do encarceramento, além da cultura punitivista da sociedade que reiteradamente opta pelo encarceramento em massa como suposta solução para os profundos conflitos sociais que nos atravessam.”

A defesa dos direitos humanos fundamentais da pessoa por parte da Igreja é a confirmação de sua caminhada junto ao povo. Por isso, a Igreja presta sua ajuda aos desamparados de qualquer tipo e ambiente social, para que tomem consciência de seus próprios direitos e saibam fazer uso deles. As Conferencias Episcopais Latino Americanas assumiram o compromisso na defesa e promoção da dignidade humana em nosso continente. “Entendemos que a verdadeira promoção humana não pode reduzir-se a aspectos particulares: deve ser integral, isto é, promover todos os homens e o homem todo.” (DAp 180. 399). Nas pessoas encarceradas vemos o próprio Cristo: “Eu estava preso e você veio me visitar” (Mt 25). O Papa Francisco nos convida a caminhar em direção às periferias do mundo e a ficar junto dos que mais sofrem. “Julgar e condenar o irmão que peca é errado. Não temos o poder de condenar o nosso irmão que erra, não estamos acima dele: mas temos o dever de recuperá-lo à dignidade de filho do Pai e de acompanhá-lo no seu caminho de conversão.” (Audiência pública, 21/09/2015)

A presença da Igreja junto às pessoas presas e suas famílias é fundamental. Ela se compromete com a defesa dos direitos humanos e a defesa da vida em sua integralidade, em vista de um mundo sem prisões. Nas visitas aos presídios, deparamo-nos com inúmeras irregularidades, além de algumas situações de vulnerabilidade e violação dos direitos. Buscamos com este trabalho pastoral defender a justiça restaurativa que reabilita e reinsere o encarcerado na vida social, busca a recuperação e restauração do apenado e daquele que sofreu a violência. Esta justiça precisa ser praticada nas unidades prisionais presentes no território da Diocese. Além disso, necessitamos criar estratégias de superação dos preconceitos contra os encarcerados e suas famílias e atuar na superação dos conflitos sociais, religiosos, políticos, que conduzem a esta realidade.

Comunicação

A comunicação “diz respeito aos processos de construção simbólica que possibilitam interação pessoal e a organização social. Não se trata de mera transmissão de mensagens, mas de ressignificação constante do mundo. Comunicando-se, as pessoas interagem com a realidade e, a partir dela, dialogam com o mundo que as cercam, por meio de todas as linguagens e tecnologias que se aperfeiçoam a cada dia, buscando dar sentido ao mundo e à sua existência. As ações comunicativas permeiam todo o tecido social em suas interações na família, no trabalho, no lazer, na comunidade, na escola, na Igreja, permitindo ao ser humano sua afirmação como pessoa ativa em uma sociedade em mudanças” (Doc. 99, 12). Como um fármaco, um remédio, a comunicação pode nos ajudar no processo de cura ou nos adoecer e destruir, caso seja tomado de forma indevida, ou com dosagem imprópria. Os meios e novas tecnologias de comunicação nos tem devorado, consumido, alienado; têm ocupado quase todo o nosso tempo, nos acomodando e nos deixando preguiçosos e deprimidos. Hoje temos facilidade de nos comunicar com pessoas do outro lado do mundo, mas temos dificuldade de nos comunicar, dialogar e nos relacionar decentemente com a pessoa que mora ao nosso lado ou trabalha conosco. Por vezes, o modo e o conteúdo que se comunica obscurece a realidade; ao invés de nos animar na defesa da vida e da dignidade humana, isso tem sido um ópio que nos deixa tontos, dando-nos uma sensação ilusória de bem-estar.

A troca de informações, que deveria ser um fator vital para o desenvolvimento humano, tornou-se negócio, mecanismo de propaganda, coisa descartável. Tudo vira virtualidade ou mercadoria. Veicula-se hoje através dos grandes meios de comunicação um discurso ideológico demoníaco, que esconde a realidade, perverte as consciências, gera o consumismo, inverte a noção de valores, eleva a sagrado o desejo dos indivíduos, destrói os vínculos familiares e comunitários, transforma a educação, a política, a sexualidade e a religião em mercadorias. O dinheiro invade os meios de comunicação e os domina, ele se apresenta de maneira sedutora, todavia, é perverso, imoral, enganador; o seu alimento é o sangue dos pobres.

Existem hoje no Brasil mais de 10 mil pedidos de concessão de rádios comunitárias. Muitos grupos se formaram e movimentos vem acontecendo em torno da luta pela democratização da comunicação e pela liberdade de imprensa. Não podemos dizer que a comunicação no Brasil é democrática enquanto os veículos de comunicação estiverem nas mãos de poucos. Este cenário da concentração dos meios de comunicação implica no problema do controle e produção das informações que, geralmente, não servem ao bem comum. Mais importante do que a liberdade de imprensa, o que o povo precisa é de uma informação transparente e responsável, ética e honesta, isenta de ideologias. Todos os meios de comunicação precisam cumprir a sua função social de ser a voz do povo, de ser aberto à pluralidade de ideias, ser democrático, valorizador das culturas locais, defensor da vida em todas as suas dimensões.

O grande sonho é que as TVs, as rádios, as redes sociais e digitais de comunicações e as mídias em geral contribuam com a educação e o desenvolvimento sadio e solidário de nossos povos, comunidades, grupos e pessoas; tornem-se públicos, éticos, comprometidos com a verdade e a busca de socialização da riqueza, dos saberes, das ciências e experiências de nossa gente. “Quando os processos de comunicação social se submetem ao sistema econômico e comercial, privilegiam-se o espetáculo e o entretenimento, e a comunicação midiática se reduz à lógica do mercado. O vertiginoso aumento dos investimentos e dos lucros leva à criação de grupos monopolizadores, com o risco de condicionarem a visão e a interpretação da realidade, propondo modelos distorcidos da existência humana, da família e da sociedade” (Doc. 99, 25).

É preciso reagir e construir o novo, anunciar a Boa Nova também no mundo da comunicação. Precisamos fazer de nossas pequenas mídias, veículos de comunicação das Bem aventuranças, das Boas Novas aos pobres, profetas, animadoras de grupos e comunidades na busca de horizontes e perspectivas novas, na busca de um mundo melhor. O papa Francisco fala que “vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade” (EG 64). Na sua mensagem para o dia mundial das comunicações de 2016, ele diz que “a comunicação tem o poder de criar pontes, favorecer o encontro e a inclusão, enriquecendo assim a sociedade. Como é bom ver pessoas esforçando-se por escolher cuidadosamente palavras e gestos para superar as incompreensões, curar a memória ferida e construir paz e harmonia.” Para sermos bons comunicadores é preciso antes aprender a escutar, pois, segundo o papa Francisco, “Comunicar significa partilhar, e a partilha exige a escuta, o acolhimento.”

O papa Francisco lembra, também, que “e-mails, sms, redes sociais, chat podem ser formas de comunicação plenamente humanas. Não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao seu dispor. As redes sociais são capazes de favorecer as relações e promover o bem da sociedade, mas podem também levar a uma maior polarização e divisão entre as pessoas e os grupos. O ambiente digital é uma praça, um lugar de encontro, onde é possível acariciar ou ferir, realizar uma discussão proveitosa ou um linchamento moral. (…) Em rede, também se constrói uma verdadeira cidadania. O acesso às redes digitais implica uma responsabilidade pelo outro, que não vemos mas é real, tem a sua dignidade que deve ser respeitada. A rede pode ser bem utilizada para fazer crescer uma sociedade sadia e aberta à partilha.”

Nos últimos anos, surgiram muitos meios de informação e comunicação. Salta aos olhos a multiplicidade de jornais, sites, blogs, rádios em diversos municípios. Nossa Diocese tem disponibilizado meios de formação e informação, tais como o Jornal Fonte, a Revista Diocesana, o Site Diocesano, redes sociais, os subsídios para os grupos de reflexão, grupos de jovens e formação de lideranças, as escolas de formação, os serviços pastorais e litúrgicos e tantos outros, iluminando o olhar dos discípulos, sendo um diferencial na comunicação, testemunhando os valores cristãos, buscando a verdade e informando com ética.

Educação

Em nossa diocese, segundo dados do IBGE (2010), das pessoas com 15 anos de idade ou mais que não foram alfabetizadas, temos 6,4% de homens e 7,5% de mulheres. Considerando as pessoas com 25 anos de idade ou mais que concluíram um curso superior temos 20.206 pessoas, que significa apenas 5,4% da população.

Conforme assistimos junto ao Congresso Nacional, foram aprovadas medidas provisórias e projetos de lei contra a educação pública e de qualidade, motivo de grandes protestos por parte de estudantes e professores. A educação vem sendo transformada em mercadoria e, desta forma, está deixando de ser um direito universal e está sendo desviada de sua função primordial que é favorecer para a compreensão, a humanização e a socialização das pessoas, e passando a ser manipulada segundo uma lógica perversa de exclusão, insensibilidade e degradação humana. Caminha-se para uma educação tecnicista e utilitarista, uma educação na qual as pessoas aprendem a fazer coisas, a desenvolver habilidades técnicas, todavia nega-se nesse processo a educação para a sensibilidade solidária, para a convivência fraterna e para a cidadania.

O conhecimento religioso, revelado ou não, é parte do conhecimento humano e, por isso, pode estar entre os fundamentos dos processos educacionais. A escola é um espaço de construção de conhecimentos e, principalmente, de socialização dos conhecimentos historicamente produzidos e acumulados. Como todo o conhecimento humano é sempre patrimônio da humanidade, o conhecimento religioso deve, também, estar disponível a todos os que dele queiram ter acesso. Durante séculos de história, a religião foi referência para as pessoas, mas o racionalismo, que marca a modernidade, tentou negá-la, apregoando a supremacia da ciência e da técnica. Esse sistema de ideias forjou o ser humano atual, fragmentado, insatisfeito, inseguro, inquieto, desconfiado… Agora, mais do que nunca, ele procura respostas que lhe deem sentido à vida, que lhe permitam transcender a este mundo e acreditar em algo mais.

A tendência normal do estudante, daquele que frequenta a escola apenas até o final do ensino médio, é a de vir a adquirir certa competência profissional e se tornar um trabalhador, um técnico, um funcionário de alguma empresa e receber um salário que lhe garanta a satisfação, ao menos, de suas necessidades básicas. Um curso técnico lhe garante certas informações e certos conhecimentos necessários para o exercício de uma profissão, porém o bom exercício de uma profissão não depende apenas de informações e conhecimentos. Os caminhos de realização humana dependem de outras dimensões tais como a intuição, a sensibilidade humana, a capacidade de diálogo e de socialização, o senso crítico, a criatividade e as dimensões da ética, da utopia, da religiosidade e do desenvolvimento psicoafetivo. Sem considerar essas dimensões no processo de ensino-aprendizagem do jovem, ele terá grandes dificuldades de encontrar o sentido da existência humana e do universo. A realização pessoal e profissional passa não somente pela competência técnica e profissional, mas, também, pela competência e sensibilidade emocional, relacional e solidária. Não basta, à universidade, oferecer apenas informações e conhecimentos. Ela é chamada a fomentar e a garantir processos de emancipação humana, competência profissional e busca de sabedoria. Educar para a esperança e a solidariedade é o caminho que leva à sabedoria.

A formação acadêmica de professores é deficitária pois carece de reflexão integral do ser humano na perspectiva de uma educação democrática, humanizada e transformadora. Constata-se uma formação massificada, tecnicista e utilitarista. Embora seja mais abrangente, é ainda mais precário o ensino à distância, pois prejudica a construção coletiva dos saberes e as inter-relações. Importa estimular, fortalecer e promover os grupos de professores com visão ética, democrática, cidadã e cristã, tornando-os agentes de transformação da realidade.

A Diocese de Caçador quer e pode ser mais ousada em sua ação evangelizadora, adentrando-se a espaços em que se encontra ausente e sendo uma resposta significativa e alternativa especialmente no campo da educação. O campo da educação popular e alternativa tem despertado maior interesse por parte da Igreja, essa perspectiva procura articular e promover um desenvolvimento humano integral, social e econômico integrados onde saber aprender, saber ser, saber conviver, saber doar-se e saber curvar-se diante do mistério e do transcendente caminham juntos. Estes saberes interconectados haverão de ser as portas abertas da novidade educativa dos tempos atuais. Menosprezadas até o tempo presente pelas academias, a sabedoria e a religiosidade popular trazem consigo um acúmulo e uma riqueza de elementos indispensáveis à vida e que precisam de espaços de reconhecimento e socialização. Desta maneira entendemos que o casamento entre caridade e educação é de fundamental importância à ação evangelizadora da Igreja nos tempos atuais. A academia é indispensável, mas o seu foco haverá de ser a educação popular e o seu espírito haverá de ser o de transformação da realidade vigente pelo caminho da inclusão social, da rejeição à idolatria do mercado, da valorização das diferentes culturas e tradições religiosas, do diálogo, da democracia, da cidadania e da defesa dos direitos humanos.

A nossa Igreja promove e valoriza diversas iniciativas pastorais que educam pela caridade: a Catequese, a Pastoral da Criança, a Pastoral da Juventude, a Pastoral Familiar, a Pastoral da Pessoa Idosa, a Pastoral Carcerária, a Pastoral da Saúde, a Pastoral da Terra, os Grupos de Reflexão, os Movimentos Eclesiais e Sociais, a Cáritas, entre outras. Aí está o nosso tesouro e, portanto, o nosso coração. Milhares de pessoas atuam, como voluntários, nessas iniciativas. Estas pessoas precisam de maior capacitação teórica, técnica e metodológica, fazendo dos educadores populares sujeitos de transformações sociais.

Também temos, enquanto Igreja diocesana, uma longa trajetória de atuação no campo da educação de crianças, jovens e adultos que nos dão credibilidade e reconhecimento, permitindo assim que avancemos mais na área da educação. Entendemos que as iniciativas históricas, algumas delas permanentes de nossa caminhada, ganharão maior qualificação e eficácia na medida em que reunirem grupos de estudos tendo em Jesus Cristo o centro, o modelo e a inspiração desses e de novos processos de educação que poderão surgir.

Saúde

Saúde é afirmação da vida, em suas múltiplas incidências, e um direito fundamental que os Estados devem garantir. Ela se define como “um processo harmonioso de bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, e não apenas a ausência de doença, processo que capacita o ser humano a cumprir a missão que Deus lhe destinou, de acordo com a etapa e a condição de vida em que se encontre” (GPS 8). A vida saudável requer harmonia entre corpo e espírito, entre pessoa e ambiente, entre personalidade e responsabilidade. A saúde é uma condição essencial para o desenvolvimento pessoal e comunitário, que exige articular o tema saúde com a alimentação; a educação; o trabalho; a remuneração; a promoção da mulher, da criança, da ecologia, do meio ambiente etc. Estas ações implicam na construção de políticas públicas e de projetos de desenvolvimento firmadas em valores como: a igualdade, a solidariedade, a justiça, a democracia, a qualidade de vida e a participação cidadã. Trata-se de uma concepção dinâmica e socioeconômica da saúde que, ao tomar o tema da saúde, não restringe a reflexão a causas físicas, mentais e espirituais, mas avança para as sociais (CF 2012, 14-16).

As enfermidades, o sofrimento e a morte apresentam-se como realidades duras de serem enfrentadas e contrariam os anseios de vida e bem-estar do ser humano, principalmente dos mais pobres. A experiência da doença mostra que o ser humano é uma profunda unidade entre corpo e alma. (CF 2012, 07-10). Os homens que sofrem tornam-se semelhantes entre si por efeito da analogia da sua situação, da provação do destino partilhado, ou da necessidade de compreensão e de cuidados; mas sobretudo, talvez, por causa do persistente interrogar-se sobre o sentido do sofrimento. Embora o mundo do sofrimento exista na dispersão, contém em si, ao mesmo tempo, um singular desafio à comunhão e à solidariedade (SD 8).

Segundo o senso IBGE/PNS 2013: a auto-avaliação de brasileiros, com 18 anos ou mais, de saúde boa ou muito boa é de 67,4%, os fumantes atuais de cigarro somam 15,8%. As principais doenças crônicas que afetam um maior índice de brasileiros são: Hipertensão arterial (21,8%), doença de coluna (21,3%), colesterol alto (13,3%), depressão (12,9%), doença do coração (5,8%), diabetes (5,5%), asma (4,3%), DORT – Doenças Osteoarticulares Relacionadas ao Trabalho Repetitivo (4,1%), câncer (3,9%), insuficiência renal (2,6%). Nos últimos 12 meses (antes da pesquisa) consultaram: um médico (73,9%) e um dentista (54%); foram internados em hospitais (5,7%), se sentiram discriminadas no serviço de saúde (11,5%).

O uso de agrotóxicos é outro fator altamente prejudicial à saúde. Cientistas documentaram as consequências para a saúde do Roundup e do glifosato na nossa comida, na água que bebemos, no ar que respiramos e nos lugares em que nossas crianças brincam. Encontraram os seguintes problemas de saúde que eles atribuem à exposição ao Roundup e/ou ao glifosato: Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Alzheimer, Anencefalia e outros defeitos de nascença, Autismo, vários tipos de Câncer (principalmente o cerebral e o de mama), Intolerância ao glúten, Doença crônica nos rins, Colite, Depressão, Diabetes, Doença cardíaca, Hipotireoidismo, Doença hepática, Esclerose múltipla, Doença de Parkinson, entre outros. (Publicado no site http://cartamaior.com.br, em 17/02/2015)

O problema da saúde não é apenas um problema específico das pessoas, mas também está relacionado com outros graves problemas sociais, tais como: a persistência do trabalho infantil, a prostituição infanto-juvenil, o subemprego, a concentração da renda, a pobreza, o crescimento desordenado das cidades, a favelização, a violência no trânsito, a má alimentação, o estilo de vida que não respeita o corpo, que não valoriza a convivência, a falta de saneamento básico, a falta de políticas públicas e investimento em saúde preventiva, a falta de segurança pública, entre outros. Tudo isso traz graves problemas para a saúde e a qualidade de vida das pessoas.

A Igreja no Brasil tem manifestado uma preocupação especial para com os idosos que, além dos problemas de saúde, sofrem com o abandono, a discriminação e a falta de amor; e, também, com as crianças, adolescentes e jovens que precisam de maior atenção, pois são os mais expostos ao perigo das drogas, da violência, do abuso sexual, bem como à falta de oportunidades e perspectivas de futuro (DGAE 113; PRPSC 2016-2019, 39-40). Entretanto, é necessário que a Igreja dialogue com o poder público, com os agentes e profissionais de saúde para estabelecer parcerias, ampliar e fortalecer políticas públicas de saúde, bem como, engajar-se nas campanhas contra a AIDS, a violência no trânsito, a favor da doação de sangue, dos meses temáticos e outros. É preciso também promover o fortalecimento das pastorais que podem contribuir em campanhas de educação, conscientização e promoção da saúde.

Quem segue Jesus Cristo sabe da importância da fé e da participação comunitária na busca de melhor qualidade de vida às pessoas. Recentemente, também, diversos cientistas reconhecidos mundialmente afirmam que a fé em Deus é um auxílio importante para a cura e a saúde das pessoas. Fazer parte de um Grupo de Jesus, tal como participar de um grupo de reflexão ou de uma pastoral é o grande convite que ele nos faz, de sermos ramos da videira, seus discípulos missionários, para podermos produzir muitos frutos em favor da vida e da felicidade e dignidade humana.

O papa Francisco na XXX Conferência Internacional com Agentes e profissionais da Saúde de 2015, afirmou que precisamos promover a cultura da saúde, que tem como elementos constitutivos o acolhimento, a compaixão, a compreensão e o perdão. Também, insistiu na conversão do coração para que sejamos interpretes do grito pela dignidade humana que vem dos mais pobres, doentes, dos que sofrem, afim de que este grito se transforme em gestos concretos de misericórdia. Ele criticou a cultura do descarte que vê o ser humano segundo critérios de utilidade, eficiência e perfeição física; e expressou o desejo de que sejam levados em consideração os aspectos ambientais nas suas relações com a saúde física, psíquica, espiritual e social da pessoa humana e se possa assim contribuir para a um novo desenvolvimento da cultura da saúde em sentido integral.

Dependência química

A dependência química é uma doença que atinge o ser humano na sua totalidade. Ela afeta o corpo, a mente, o espírito, as emoções e as relações. Além do indivíduo, são afetados também aqueles que estão próximos. Neste sentido, é também um problema social. “As drogas são, na verdade, uma nova forma de escravidão” afirmou o papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude Rio 2013.

O problema das drogas no mundo atual é complexo e polêmico. Complexo, porque só se pode falar de drogas no plural e porque o problema reside menos nas drogas enquanto substâncias entorpecentes do que em seu uso, suas consequências e no sistema que as sustenta. Polêmico, porque são muitos os diagnósticos e, frequentemente, as propostas para uma política antidrogas conflitam entre si.

A produção e o tráfico de drogas tornaram-se um grande negócio e, portanto, interferem na política e na cultura do povo. O problema passou a ser estrutural, atingindo um número crescente de pessoas. São consideradas drogas: lícitas (livremente produzidas e comercializadas, como o fumo e o álcool); semilícitas (distribuídas somente sob prescrição médica); ilícitas (cuja produção, comercialização e consumo constituem infrações legais).

Em 2010, segundo a OMS, no Brasil, o consumo total estimado de álcool puro é de 8,7 litros por pessoa (com 15 anos ou mais); superior à média mundial que foi de 6,2 litros. Quando são considerados somente os brasileiros que consomem álcool, esta média sobe para 15,1L de álcool puro por pessoa (sendo mulheres: 8,9L e homens: 19,6L). O alto consumo de álcool está associado a diversos problemas agudos, como acidentes e violência; é um dos fatores de risco de maior impacto para a morbidade, mortalidade e incapacidades em todo o mundo. Quase 6% de todas as mortes são atribuídas ao uso do álcool. Além do álcool, existem atualmente inúmeras drogas que afetam diretamente as famílias, a escola e a sociedade. É mais preocupante o uso do crack, pois atinge principalmente os jovens e os mais pobres.

A realidade das drogas abala muitos sonhos, transformando-os em pesadelos. O fumo, o álcool, os estimulantes, os tóxicos e entorpecentes estão mais perto de nós do que por vezes suspeitamos ou queremos admitir. Há um enorme exército de produtores, agentes financeiros e traficantes comandando o mundo das drogas. É muito dinheiro em jogo. É muita vida desperdiçada. De nada adianta fugir da realidade. Ao contrário, devemos encará-la de frente para conhecer o drama das drogas em toda sua complexidade e assim nos colocarmos em posição adequada para enfrentá-lo e superá-lo.

Esse problema exige a revisão de certas atitudes simplistas que o reduzem a uma questão individual, fechando os olhos para a complexidade do sistema e limitando-se a propor terapias de recuperação. Nunca é demais lembrar os estragos feitos pelo narcotráfico, pensar nos gastos públicos com o tratamento de saúde dos fumantes, ou ainda no custo social do alcoolismo e tudo que ele acarreta: acidentes de trânsito, desemprego, brigas e morte, problemas familiares, o aumento da violência e a extensão do crime organizado a quase todas as esferas da sociedade. Se é certo que a terapia é indispensável, importa também considerar outras ações possíveis contra o sistema das drogas, dentro do espírito de responsabilidade compartilhada.

Reconhecemos que a Igreja não tem conseguido contribuir significativamente para o enfrentamento desse problema. Somos convocados a um maior engajamento na luta por um mundo livre das drogas. “Oportunidades de trabalho, educação, desporto, vida saudável: este é o caminho da prevenção da droga”, afirmou o papa Francisco. Durante a Jornada Mundial da Juventude, Rio 2013, também afirmou que “é necessário enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo uma maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldade e dando esperança no futuro”.

Quando se trata de fazer o bem, todas as pessoas sensíveis à dor alheia são chamadas a um grande mutirão. É necessária uma responsabilidade compartilhada. Reconhecemos e valorizamos o empenho e tantos grupos profissionais e organizações dedicadas à recuperação das vítimas das drogas. Faz-se necessário um amplo e profundo trabalho de prevenção, de construção de políticas públicas de saúde, combate ao narcotráfico, de tratamento e reinserção social dos dependentes de drogas. Para melhor viabilizar os meios de prevenção e recuperação é necessário implantar a Pastoral da Sobriedade e estabelecer parcerias com entidades e grupos afins.

Fonte: Plano Diocesano de Pastoral 2017 – 2020