Diocese de Caçador

Histórico

Considerar as raízes de nossa história

Precisamos captar os novos desafios que emergem como interpelações do Espírito nas diversas esferas da vida em sociedade: cultural, econômica, ecológica, política, religiosa e eclesial. O Documento de Aparecida afirma que não é o mundo que está na Igreja, mas é a Igreja que está no mundo, por isso, não devemos ficar olhando para o céu, e sim para os clamores, desafios, angústias e esperanças que brotam dessas realidades. Todas essas esferas da sociedade possuem uma história que precisa ser considerada. Não podemos desrespeitar as heranças históricas do nosso povo, sob a pena de perdermos o rumo da vida (DAp 44).

Contamos com uma rica herança dos povos tradicionais: etnias guarani, xokleng e kaigang. Seus vestígios, suas marcas, seus mitos, lendas e seus descendentes continuam entre nós. Apesar das expropriações de suas terras, dos massacres, do desprezo, da exclusão e dos ínfimos espaços que restam para suas comunidades originais, eles continuam questionando, interagindo, integrando-se e lutando pela sobrevivência em nosso território.

Até o final do século XVIII, a economia de nossa região era predominantemente baseada em pequenas aldeias ou comunidades que viviam à base da caça, pesca e coleta de alimentos. O cultivo da terra era praticamente inexistente devido ao nomadismo dos povos que habitavam a região. Durante o século XIX, as frentes de ocupação dos paulistas instalaram grandes fazendas de criação de gado, comercializado especialmente nos grandes centros urbanos dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Este processo se deu à base da submissão, exploração ou extermínio dos antigos habitantes, e se iniciou um amplo processo de colonização da região.

Nas proximidades do “caminho das tropas”, formaram-se as primeiras comunidades, preponderantemente de caboclos, cujas raízes étnicas são povos originais (guarani, xokleng e kaigang), povos afrodescendentes (banto e sudanês) e europeus (português). Vale destacar que uma parte considerável da população de nossa Diocese é constituída de caboclos.

Aos poucos, a atividade pastoril foi sendo substituída pela extração da erva-mate, da madeira e pela agricultura. Antes eram as florestas e rios que representavam a sobrevivência, depois os campos e, mais recentemente, as lavouras. Entre meados do século XIX e início do século XX, nosso chão passou a ser, cada vez mais, habitado por euro-descendentes, boa parte dos quais vindos do Rio Grande do Sul.

Em meio aos projetos de colonização, construção da estrada de ferro e outras iniciativas que visavam trazer progresso para a região, muito sangue foi derramado. O imperialismo, a república e o capitalismo se impunham de maneira violenta e excludente contra o povo que habitava essa região. Disputas territoriais entre Brasil e Argentina e depois entre os governos do Estado do Paraná e de Santa Catarina foram motivos de conflitos e mortes de muita gente. Emergiram alguns movimentos populares de resistência, rebeldia e busca de alternativas. Sobreveio a Guerra do Contestado (1912-1916), e antes dela, a presença de alguns benzedores, profetas ou santos populares, tal como o reconhecido e venerado “São” João Maria, que orientaram a vida e alimentaram a religiosidade e a esperança do povo. Seus ensinamentos ajudaram na organização solidária dos redutos do Contestado e continuam presentes na vida e na mística do povo de nossa Diocese.

A Guerra do Contestado expressou, por um lado, uma imposição de um novo projeto econômico, a modernização capitalista e, por outro, um amplo processo de resistência a esse projeto com a edificação de redutos e comunidades baseados na economia solidária. Uma rica herança de símbolos, mitos, ritos, rezas, lições, sabedoria, memórias e sonhos continuam presentes junto aos descendentes dos que foram violentados.

Após a Guerra do Contestado, o processo de colonização, seguido da urbanização e industrialização da região avançou rapidamente. Esse processo foi liderado, sobretudo, pelos imigrantes de origem europeia. Pequenas vilas crescem e se tornam municípios. Algumas comunidades de origem asiática chegaram na região, deixando, também, uma riqueza cultural e uma contribuição significativa, sobretudo à agricultura. Recentemente, chegaram nesta região inúmeros imigrantes de origem haitiana e de outros países procurando melhores condições de vida ou fugindo de conflitos e guerras.

O êxodo rural cresce especialmente a partir da década de 1970. Com o avanço do grande capital por meio das agroindústrias, madeireiras, fábricas de papel, dos frigoríficos, do sistema financeiro, entre outros, inúmeros proprietários rurais perdem suas propriedades e passam a procurar alternativas de vida nos centros urbanos. Os governos militares, seguidos dos liberais, foram os principais responsáveis pelo êxodo rural, pelo envenenamento das terras e dos alimentos com o uso indiscriminado de agrotóxicos, pela contaminação das águas e por diversos outros problemas ambientais e sociais, como a fome e a miséria.

As pequenas propriedades se destacaram na produção de trigo, milho, feijão, leite, frutas, suínos, aves e diversos outros produtos agrícolas capazes de fornecer grande parte dos alimentos da região e contribuir no abastecimento do mercado interno do País, inclusive produtos para a exportação. A agricultura familiar, o agronegócio, a urbanização, a industrialização e o desenvolvimento apresentam características específicas em nossa Diocese que se traduzem em avanços e preocupações para a nova evangelização.

 O cenário atual apresenta uma concentração de população em poucas cidades e uma distribuição injusta e desigual da riqueza. Sabe-se que diversos projetos do governo federal, da última década, bem como inúmeras iniciativas da Igreja e da sociedade contribuíram com a erradicação da miséria e da fome, todavia as melhorias continuam aquém do que se espera e do que é possível melhorar. Após o impeachment presidencial em 2016, instalou-se um governo federal com políticas de centralização e concentração do capital nas mãos de alguns privilegiados, inclusive do capital internacional, cortando investimentos das políticas e direitos sociais, gerando mais sofrimento, particularmente, aos mais pobres.

Recordar a caminhada da diocese

A Diocese de Caçador foi criada no dia 23 de novembro de 1968, pelo Papa Paulo VI. O território foi desmembrado da Diocese de Lages. A diocese, que foi criada com 18 paróquias distribuídas em 18 municípios, hoje conta com 25 paróquias distribuídas em 23 municípios.

No dia 12 de março de 1969, foi nomeado o primeiro bispo, Dom Orlando Dotti, iniciando o exercício do ministério na Diocese, em 29 de junho de 1969. Dom Oneres Marchiori o sucedeu, tomando posse no dia 1° de março de 1977. O 3° bispo da Diocese de Caçador, foi Dom Luiz Colussi. Ele iniciou seu pastoreio no dia 05 de fevereiro de 1984 e o exerceu até 04 de dezembro de 1996, quando faleceu. De 09 de dezembro de 1996 a 18 de novembro de 1998, a Diocese foi governada pelo Administrador Diocesano Pe. Luiz Carlos Eccel, que foi nomeado bispo. Iniciou o ministério episcopal no dia 07 de fevereiro de 1999. Dom Luiz Carlos Eccel exerceu o pastoreio da diocese até o dia 24 de novembro de 2010, quando o papa Bento XVI aceitou o seu pedido de renúncia. Em seguida, a diocese foi governada pelo Administrador Apostólico Dom Oneres Marchiori, bispo emérito de Lages, até o dia 04 de setembro de 2011. Dom Frei Severino Clasen, ofm, atual bispo de Caçador, foi nomeado no dia 06 de julho de 2011, iniciando seu pastoreio em nossa Diocese no dia 04 de setembro de 2011.

Reconhecemos a importância de inúmeros padres, diáconos, religiosos e leigos que marcaram história em nossa região, inclusive sendo protagonistas na edificação de diversas entidades e instituições voltadas para a saúde, educação, comunicação, assistência e organização social e comunitária. Além de muitos registros dos seus nomes em ruas, praças, escolas, municípios, entre outros, há uma rica memória viva do testemunho de fé, empenho missionário, criatividade e coragem pastoral, conhecimento científico e visão de futuro, empreendedorismo, que continua inspirando nossa ação evangelizadora.

A área total da Diocese de Caçador é de 12.160 Km², equivalente a 12,72 % da área total do estado. Atualmente, segundo estimativas do IBGE para 2015, residem na região 147 mil habitantes. Isto representa 5,87% do total dos catarinenses. A densidade demográfica da região é de 32,5 hab./km², menos da metade da estadual que é de 70,5 hab./km². No ano de 2010, residiam na área urbana 271.710 (76%) pessoas e na área rural 89.023 (24%) pessoas.

Segundo pesquisas do IBGE (2010) na Diocese, a população católica é de 303.109 pessoas. As que se declaram sem religião e/ou ateus somam 5.875 pessoas. No que tange às etnias em nossa diocese temos 2.225 pessoas de cor ou raça amarela, 88.114 pessoas de cor ou raça parda, 8.733 pessoas de cor ou raça preta, 597 pessoas de cor ou raça indígena, e os demais 276.431 são de cor ou raça branca. O índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios e a renda PIB per capita da diocese cresceu consideravelmente nos últimos 15 anos. Assim mesmo temos em nossa diocese 24.200 famílias com renda per capita inferior a ½ salário mínimo mês.

A caminhada pastoral da nossa Diocese tem sido ousada e rica. Superamos muitos desafios e assumimos diversas iniciativas e projetos. Diversos sinais do Reino de Deus foram percebidos em nossa realidade e caminhada. Ainda existem situações de pecado que clamam por conversão e transformação. Sempre procuramos manter viva a esperança em Deus que “vê, ouve e desce para libertar o seu povo” (Ex 3,7). Não é difícil perceber que Deus continua caminhando com seu povo em nossa Diocese e, agora, Ele nos desafia a abrir os horizontes e assumir novos compromissos no desejo de realizar, cada dia mais, o seu Reino de justiça, amor e paz.

Destacamos alguns fatos, acontecimentos e inciativas de nossa história diocesana: construção do Seminário Diocesano Cura D’Ars, da Cúria Diocesana, do Centro de Formação João Paulo II, Seminário Teológico – Residência São José, Santuário Diocesano Nossa Senhora de Fátima, Mãe dos Pobres, Assembleias Diocesanas, Romarias da Terra, encontros de CEBs, CEPAGRI, EFAP diocesana, Organização dos Conselhos de Pastoral, de Presbíteros e de Administração, organização das pastorais e ministérios, Grupos de Reflexão, Projeto “Resgate das Raízes Históricas”, a organização do Secretariado Diocesano de Pastoral, os projetos diocesanos: Juventude, Cáritas, a caminhada pastoral das microrregiões e paróquias, os Encontros Interdiocesanos dos Grupos de Reflexão, as Rádios Comunitárias, o Projeto de informatização da Diocese, as Campanhas da Fraternidade, entre outros. Para dinamizar a caminhada, contamos com uma espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo que foi assumida nas características: Igreja Participativa, Comprometida com os Problemas do Povo, Libertadora e Missionária. Faremos memória da nossa caminhada ao celebrarmos nos anos de 2018-2019 o Jubileu de Ouro.

Queremos também lembrar que este Plano Diocesano de Pastoral não é algo totalmente novo. Conforme as sugestões vindas das paróquias precisamos dar continuidade aos grandes projetos já assumidos que expressam avanços na caminhada pastoral e também a necessidade de ampliação. Lembramos do nosso primeiro Plano Diocesano de Pastoral de 1997 e dos projetos assumidos a partir de então: Jornal Fonte, EFAP paroquial, Projeto Missionário, Projeto de Agroecologia, Escolas Diocesanas: Ética e Cidadania, Bíblica, Catequética e da Juventude, Grupos de Reflexão, Projeto Família “Santuário de vida e fé”, Projeto Formação e Projeto Missão.

A Diocese, além do que já foi citado, também traz consigo diversos compromissos que marcaram a sua história: As lutas pela vida, pela reforma agrária, pelos Direitos Humanos, pela paz e contra a violência, pela erradicação da Miséria e da Fome; a realização dos Plebiscitos contra a ALCA e pela defesa da Companhia Vale do Rio Doce, como patrimônio da nação brasileira; o referendo pelo desarmamento, entre outros. Todas estas lutas foram realizadas com o apoio e parceria dos movimentos sociais, tais como o Movimento dos trabalhadores Rurais Sem Terra, o Movimento dos Atingidos por Barragens, o Movimento pela Ética na Política, entre outros.

Na Assembleia Diocesana de 2012 foi aprovado o Plano Diocesano de Pastoral (PDP) 2013-2016. Na avalição deste PDP percebeu-se diversos avanços na caminhada pastoral diocesana e alguns retrocessos. O projeto missão e a escola paroquial de formação foram fortes estímulos para as pessoas participarem nas comunidades de fé. Algumas experiências de setorização contribuíram para a integração e entrosamento das comunidades, o que facilitou a participação em reuniões, cursos e formações. Destacam-se avanços nos aspectos litúrgicos-celebrativos e pastorais. Outros avanços foram percebidos no âmbito dos Conselhos de Pastoral, nas construções e reformas, no trabalho com a juventude, nos ministérios, nos movimentos eclesiais, na participação comunitária e na valorização do Centenário do Contestado.

Percebe-se que as dificuldades maiores estão na participação, na falta de acolhimento, nas celebrações, principalmente da Palavra, nas reuniões, nas formações, nos grupos de reflexão, na participação da juventude, no compromisso dos pais em relação à catequese, na efetivação dos Conselhos de Pastoral, na organização e no compromisso com as pastorais.

Quanto aos projetos de formação e missão, entende-se que há necessidade de continuidade de ambos. Todavia, algumas sugestões foram apresentadas: priorizar a formação e a missão a nível paroquial, que forme discípulos missionários e tenha uma metodologia processual, gradual, a partir de pequenos grupos, com acompanhamento e que considere a diversidade de realidades, conforme a espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo.

Para dar continuidade à missão evangelizadora, nossa Diocese, em primeiro lugar, conforme foi citado nos relatórios paroquiais, conta com as seguintes pastorais, organismos, serviços e movimentos: com os Conselhos de Pastoral, de Presbíteros, de Leigos, Administrativos, Missionário; com as pastorais: Familiar, da Pessoa Idosa, da Juventude, da Criança, da Saúde, Cabocla, Carcerária, do Menor, do Dízimo, do Batismo, da Comunicação, Litúrgica, Social; com o Serviço de Animação Bíblico Catequético, o Serviço de Animação Vocacional, as Comunidades Eclesiais de Base, os Grupos de Reflexão, a Cáritas, a Lareira, o Cursilho, o Encontro de Pais com Cristo, o Encontro de Casais com Cristo, a Renovação Carismática Católica, o Apostolado da Oração, a Legião de Maria, os ministérios leigos, os acólitos/coroinhas, as Capelinhas, o Terço dos Homens, o Movimento Mãe Peregrina, a Família Camiliana e a Salvatoriana, os Irmãos do Santíssimo, a Pia União Santo Antônio, os Focolares, os movimentos de Jovens: Treinamento de Lideranças Cristãs, Encontro de Jovens Amigos, Cenáculo, Missão Jovem, Semana Santa Jovem, Jovens Transformados por Jesus, REAJA. Além destes grupos, conta ainda com o apoio e atuação conjunta com a Ação Social do Contestado, Clube de mães, Movimento das Mulheres Camponesas, Grupo de Teatro, Rádio Comunitária, Associação Afruta, Projeto Karatê-Dô Cidadão do Futuro, Associação Paulo Freire de Educação e Cultura, entre outros.

Fonte: Plano Diocesano de Pastoral 2017 – 2020